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Conheça a Sinopse da Unidos de Manguinhos para 2025

GRES UNIDOS DE MANGUINHOS

CARNAVAL 2025

SINOPSE

Autor Diângelo Fernandes

Justificativa:

Em busca de um carnaval autentico e que nos traga emoção, o GRES UNIDOS DE MANGUINHOS viuse diante de um tema absoluto e muito valioso para todos nós: Reconhecimento e Gratidão. E nos autos de suas crenças, o enredo que a gente canta, é a história que o povo negro iniciou. É o canto dos espíritos de sobrevivência. Com grande resposta a todo sofrimento, ao desfilar sob a luz do Carnaval, a existência e resistência, o GRES UNIDOS DE MANGUINHOS sendo urna guardiã da cultura e das heranças afro-brasileiras – pede agô a todas as forças do céu, da terra e da vida para exaltar o maior fundamento de sua existência as BEM AVENTURADAS SÃO AS MULHERES NEGRAS DO BRASIL!

“A Mulher Negra” é vida, energia, poder, força e fé… Aquela que alimenta seus filhos”, “mãe”, “senhora”. Na origem desde Mãe África, dos ventres que guardam as sementes, são mulheres guerreiras, caçadoras, comerciantes, religiosas e artistas. Tem o poder de transformar-se ou encantarse…

Mesmo fazendo-se uso da escrita, a oralidade não pode ser abandonada, uma vez transmitido através da palavra; portanto, os ensinamentos são imprescindíveis. A frase: “Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas.” tem força dinâmica: dependendo do momento em que for pronunciada, a palavra pode ter a sua força ampliada.

Desde os primeiros tempos da colonização, em lugares como a Bahia e o Rio de Janeiro, a presença de mulheres africanas forras ou não foram marcantes. A atuação dessas mulheres em vários setores da sociedade, as transformou essas mulheres em personagens importantes para a história do Brasil e para formação cultural/religioso. Essas mulheres se fizeram presentes nas mais diversas atividades, assim como roceiras, mineradoras, cozinheiras, doceiras, fiandeiras, parteiras, curandeiras etc…

Surpreendentemente, um país de tradição historiográfica tão envolvida com a escravidão e suas singularidades, negligenciou os estudos sobre a vida da população livre de cor. Mas não se pode, de forma alguma, negar a importância e o significado dessa instituição na sociedade, pois até mesmo o mundo desses livres de cor foi marcado pela escravidão. No entanto, parece-nos que a base do desinteresse por essa parcela da população estava na convicção de que a sociedade e a economia se reduziam ao tripé da grande propriedade, da monocultura exportadora e do trabalho escravo. Afinal, este setor social não teria um papel fundamental na produção para a exportação.

Que rufem os tambores… Com alma, raça, vibração e que seja sentido por, cada coração a força de nossas “BEM AVENTURADAS SÃO AS MULHERES NEGRAS DO BRASIL!”

Na rua me chamam de gostosa
E o gringo acha que eu nasci pra dar
No postal mais vendido em qualquer loja
Tô lá eu de costas contra o mar

Falam que meu cabelo é ruim
É bombril, toin-oin-oin, é pixaim
O olhar tipo porta de serviço
É um míssil invisível contra mim
Sou criola
Neguinha, mulata e muito mais, camará!
Minha história
É suada igual dança no Ilê
Ninguém vai me dizer o meu lugar

Sou Zezé, sou Leci
Mercedes Baptista, Ednanci

Aída, Ciata
Quelé, Mãe Beata e Aracy

Pele preta nessa terra
É bandeira de guerra porque eu vi
Se é Conceição ou Dandara
Pra matar preconceito, eu renasci

Prá matar Preconceito
Raul Di Caprio e Manu da Cuica

 

Meu sangue vem de Luanda
Vem da senzala
Vem da roda de samba
Ou quem sabe de Palmares
Sou de todos os lugares
Dos amores
Dos tambores
Dos altares

Resistindo há tanto tempo
Bem antes da lei de Isabel
Sob a minha melanina
Uma ambição cruel

Não sou o que você pensa
Nem tampouco quero ser
Uma frágil recompensa
Nessa guerra de poder

E poder. Poder é pele preta
É poder com tudo

É se libertar

Cada cicatriz que fecha
Abro um sorriso
Não mando um aviso
Vou pra não voltar

E poder. Poder é pele preta
Negra com orgulho
Ostentando a cor
Na mira do medo
Pátria mãe gentil que chora
Pela minha dor

E poder. Poder é pele preta
Eu sou quilombola
Sim, senhor

E poder… E poder… E poder…
É pele preta
E poder

E poder. Poder é pele preta
Negra com orgulho
Ostentando a cor

O poder da pele Preta
Jorge Aragão / grupo Arruda.

“AVANTE MANGUINHOS”

Diângelo Fernandes

Autor e Carnavalesco

 

Sinopse:

Mulher sempre traz o que há de bom dentro do coração
De corpo e alma desde a criação
A alma Feminina vem brilhar a luz do luar
Pra iluminar nossas vidas
Com o mais forte cantar
E hoje a Unidos de Manguinhos vem homenagear
Cada Mulher Negra desse lugar…

E assim nosso ser Supremo,
Na alvorada do dia
Do homem, a cria
Na sua mais divina inspiração
És a mulher… Bem-aventurada
Que aflora e é revelada
Assim como a quimera
Aquela que gera a vida para perpetuação
Mulher ser especial de mistérios e surpresas,
Aquela que guarda e protege
Que se eleve e se abre agora…
Assim no bater forte no meu peito
No pulsar do meu samba
Explode o meu coração

Percorrendo a história
Desde os tempos idos de Mãe África
Buscando nas raízes mais profundas do Baobá
Seus feitos, lutas e legados
O sagrado ancestral feminino… Ensinamentos
A base de um clã, de uma tribo, de um lar
Negras livres, Rainhas e Princesas…
Mulheres guerreiras, forjadas na bravura da terra,
Emolduradas nas exuberantes paisagens africanas…
Negras que dançam para a vida e para a natureza.
Na alegria e na tristeza, Firme, forte
Na dura vida, sua lida, é cuidar

Mas num triste desterro foram capturadas
Já no porto do não retorno, Trazendo na pele as marcas da dor,
Subjugadas sem opção, escravizadas e levadas a humilhação
Escravas da dor e do sofrimento.
Acorrentadas aos seus irmãos de cor…
O que puderam fazer foi padecer, e entender sem querer
Mulheres fortes, desafiaram e foram desafiadas,
Mais nunca se renderam e nunca nada temeram.

Foi no chamado novo mundo, ainda num Brasil menino,
Que nas lavouras foram labutar…
Vergastadas pelos senhores do lugar.
Plantaram, cultivaram, colheram,… Cana-de-açúcar, algodão e café…
Mineraram, ouro, diamantes, enriquecendo o senhor…
E com um grito de liberdade, aprisionado em seus corações
Lutaram e guerrearam para se livrar desta amarga prisão!!!
Mas resistiram, destemidas, para seus ideais conquistarem
Não seguindo a dor acorrentadas nas suas almas
Em busca da tão sonhada liberdade,
Romperam barreiras, Nesse imenso Brasil
Formando assim nova nação…
Assim como Palmares, Pelo grito de liberdade preso na garganta…

Negras de tantos, de santos, angelicais
Negras dos excluídos, dos desvalidos
Negras estrelas guias, Negras da paz
Sangue de guerreiras as fizeram mulheres audaciosas,
Santas e belas como uma rosa.
Perpetuaram o clamor aos deuses encantados,
Ao som dos tambores foram louvados
Com o sincretismo religioso criado
Com os ritos e mistérios dos batuques ancestrais
Os dialetos enriqueceram o idioma…
Floresceram a cultura negra
O Sagrado Feminino assim foi se organizando
Fortalecendo as raízes negras ao Voduns, o Candomblé e a Umbanda
Ritmos, danças, comidas, temperos….
A oralidade dos ensinamentos foram perpetuando
Assim como nos cultos religiosos, esses ensinamentos vem os vistosos maracatus,
Rodas de jongo, de capoeira, do samba.
Entre outras manifestações culturais e religiosas, como o Afoxé e a Corte do Congo
Consagrando o encontro do sagrado e do profano em terras brasileiras…

Com passar dos anos, depois da tal liberdade vigiada
Condenadas a viver na pobreza… Nessa vida de sofrimento e resistência
As Mulheres Negras, e seus descendentes
Seguem a sina, de uma sorte inglória… De um destino ainda obscuro.
Bem-aventuradas são as negras na politica
Debruçadas nos raios de sol do desespero… Vivendo assim esse preconceito
Criando leis e projetos, com os mesmos ideais ancestrais
Sonhando com o fim da desigualdade.
Negras se fizeram presentes em todas as àreas e atividades
Usufruindo assim das poucas vantagens que a sociedade podia oferecer.
Buscando, cada vez mais, a diminuição dos estigmas que recaiam sobre elas.

Negras, suas descendências são estrelas a brilhar.
São mulheres, musas brasileiras em cenas
Com o dom de cantar e encantar.
Hoje, são vitoriosas, com força, inteligência, ousadia e dignidade
Enfrentando barreiras e/ou fronteiras
Em meio a uma sociedade machista
Mostrando que tem capacidade igual ou superior ao mundo
A mestiçagem e o sincretismo, com fibra e alegria…
Inspiraram e deram identidade a personalidades e suas obras imortais….
Hoje são poetisas, cantoras, artistas, estrelas em toda classes artísticas…
E como consagração a quem tanto fez e ainda faz…

Negras que cantas, que a voz vibra,
Como pássaros ancestrais é o teu cantar,
Num jeito próprio de hipnotizar
De tantos requebros e maneiras,
Fazendo o mundo inteiro sambar.
São vozes que encantam a alma
E que com calma, falam aos nossos corações
São Negras estrelas de tantas vozes, estilos e sons
São Divas, sempre vivas, como diz a canção!

Luz, câmera, ação, Mulheres negras ocupam seu protagonismo
Nos palcos da vida, batalhando, se equilibrando
E sem abaixar a cabeça para o preconceito racial
Foram à luta sem medo de errar… Mas se errar!
Tenta de novo até acertar… Cultura Negra é a arte que inspira e contagia
No teatro, na Tv e no cinema, a cultura Negra tem sua expressão…
Negra Musa Mulher, que compõe nossa vida,
Caminho que se abre, retrato que se revela.
E que na tela reparte coragem e arte que desafia
A expor a carne, a face de nossa terra
Na forma e cor de faces, se externa.
E se faz moderna, definitiva, eterna
Negras de tintas, molduras e pinceis
Guardadas como tesouro, para o futuro…

Negras do papel, Heroínas que inspiram,
Assim criaram vidas, nas palavras que esvaem vivas,
Das mãos de autoras e poetisas
De Brilhantes mentes que inspiram
E tantas outras que se fizeram eternas
De grandes filhos-homens, de alma ímpar, terna
Que tornaram reais, que foram personagens
Negras sempre com força no lápis, teclados e canetas…

Negras de ouro, de bronze e de prata
Que nos encanta, arrebatam
Como prisma que se ilumina e se refrata
Quebraram barreiras, derrubaram fronteiras
Em terra, no céu ou no mar, em campo ou quadras
Luz a doar a luz, Negras de bom coração
Negras na vida e em nossa existência
Sem perder a sua essência
Porque vencestes, que tu reinas
E reinas nos pódios da vida…

São Negras e vão à luta
Armada de sonhos e ideais
Negras de força, Heroínas reais
Negras da resistência, a desistirem jamais.
Negras dos escondidos, da busca infinita
Negras protagonistas de histórias da nossa comunidade
Comunidade do GRES Unidos de Manguinhos, símbolo de fé de toda uma nação,
Hoje nossas Negras são Conquistadoras…

Estrelas negras e mestiças, que brilham em toda parte da vida
Que restauram os direitos dos seus afrodescendentes…
Rainhas que emanam força que asseguram a existência dinâmica da comunidade.
Respeito, origem, linhagem e referência de tudo que se eterniza…
Manguinhos marca profundamente a cultura de seu povo em sua volta.
Reside um grande legado de valores e costumes preservados em todas as comunidades.
E no terreiro do samba transforma, com projetos socioculturais, mudando a realidade das novas gerações.

Rufem os tambores de axé em consagração as Bem-Aventuradas Negras do Brasil…

E que hoje o GRES Unidos do Manguinhos vem homenagear!!!

Diângelo Fernandes

Autor e Carnavalesco

 

Texto complementar:

A Diáspora Africana

A África é o berço da humanidade. Ali nasceu o Homo sapiens, negro, há 200 mil anos. Sendo a África uma região quente, sua pele era escura devido a concentração de melanina , que serve de proteção da radiação solar. À medida que foi migrando para o norte, em direção às regiões frias da Europa, sua pele foi se tornando progressivamente mais clara, culminando nos povos nórdicos.

Na África o homem evoluiu, criou a agricultura e a civilização. Na antiguidade os núbios, os etíopes, os kuch e os nok tinham um avançado grau de desenvolvimento, e os egípcios atingiram o apogeu de sua civilização. Os conhecimentos da civilização africana, via Egito, chegaram aos babilônios, persas, gregos, romanos, contribuindo para a civilização da Europa.

Até o século XV a África seguia seu próprio desenvolvimento, com importantes estados constituídos, como o Império Songai, o Império de Gana, o Reino do Zimbábue, o Reino do Daomé, a civilização Achanti (refinada pela sua arte), a civilização Yorubá (composta de cidades-estado), e a civilização Ilê Ifé, entre outras. Algumas cidades como Gao, Tomboctu, Djennê e Benim, eram mais povoadas que Lisboa, Veneza e Londres, e possuíam universidades. As sociedades africanas eram constituídas de várias etnias, ricas, complexas, plurais. Possuíam estrutura relativamente estável, e os reinos africanos gozaram de relativa estabilidade até a chegada dos europeus, para quem vendiam ouro, marfim e sal.

Os portugueses são os primeiros a chegar à África pelo Oceano Atlântico, em busca das riquezas do continente. Além de ouro, sal e marfim, em 1441 eles levaram a Lisboa alguns africanos como escravos, mais “curiosidade” do que mão de obra.

Com o descobrimento da América por Cristóvão Colombo, os portugueses vão dividir com os espanhóis as terras do Novo Mundo. E para construir suas belas colônias nas Américas, explorar suas minas de ouro e de prata, decidem escravizar os ameríndios, que não se submetem ao trabalho forçado. Fracassada a tentativa de usar mão-de-obra indígena, eles vão se voltar para os negros da África, iniciando um tipo de escravidão inédita, baseada no subjugamento de seres humanos em razão da cor da pele.

A justificativa para a escravidão negra é a Bula “Romanus Pontifex”, de 1455. Nela, o Papa Nicolau V concede ao Rei de Portugal, D. Afonso V, livre e ampla licença para “invadir, perseguir, capturar, derrotar e submeter todos os sarracenos e quaisquer pagãos e outros inimigos de Cristo onde quer que estejam seus reinos”.

Usando o nome de Deus eles vão cometer esse grave crime contra a humanidade, fazendo crer que a escravidão era a única maneira de salvar do inferno a alma desses homens “sem alma”. A religião foi o suporte ideológico de uma barbárie de “civilizados”.

Inicialmente essa mercadoria humana era constituída principalmente de populações vencidas por soberanos locais. Estabelecendo com os chefes vitoriosos um comércio baseado no escambo, trocavam com eles tecidos de seda, jóias, tabaco e armas, por seus prisioneiros de guerra. Com a intensificação das exigências comerciais, os pequenos reis levam os brancos ao interior do continente, organizando verdadeiras caçadas, ataques repentinos às aldeias, à procura da “madeira de ébano”. Milhares de pessoas são capturadas e chegam ao litoral em longas filas, como bestas humanas, chicoteadas e presas ao pescoço por pesadas forquilhas de madeira. Ali é feito o leilão, com os belos e fortes sendo escolhidos e velhos ou doentes sendo sacrificados. O comprador examina com cuidado a boca de cada um. Para cada dente que falte, o valor é reduzido.

Antes de embarcarem, no ponto do não retorno, que não veriam nunca mais, eram marcados com a cruz em brasa para que passagem do estado de “selvageria” ao estado de “felicidade”. Foram separados pra sempre de suas famílias, para que apagassem da memória suas lembranças e sua identidade cultural. Estima-se que o tráfico custou a liberdade a trinta milhões de pessoas deportadas para as Américas, sem contar as que morreram no momento da captura, na triagem ou nos navios.

Durante quatro séculos, portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses, através do tráfico negreiro, vão esvaziar a África de seus homens mais robustos, das mulheres mais sãs, das moças e crianças mais belas. Perdendo suas forças vitais, o desenvolvimento demográfico do continente vai ficar paralisado por duzentos anos.

De todos os países americanos, o que mais importou escravos foi o Brasil. Estima-se que durante três séculos de tráfico intenso, o país vai receber entre quatro e seis milhões de pessoas. Como mercadorias eram transportados em navios negreiros, que chegavam a levar 600 africanos amontoados nos porões, acorrentados uns aos outros em condições sub-humanas. Durante a travessia, que durava dois meses, muitos morriam por doença, desnutrição, inanição, banzo (melancolia causada pela saudade da terra e de sua gente), ou desespero. Muitos eram jogados dos navios, outros se jogavam como resistência à escravidão, como se o mar os fosse devolver à África.

Os primeiros desembarques aconteceram na Bahia, em 1548. Em seguida se estenderam a Pernambuco e Rio de Janeiro. Aqui novamente sofreram a humilhação da triagem, e após a venda eram marcados a ferro em brasa com a identificação do comprador.

Vão sofrer, além da violência física, a violência cultural, através da imposição do idioma português e da religião católica, em detrimento da cultura africana, das suas crenças religiosas e do seu modo de ser.

Aqui foram explorados nas lavouras e nos engenhos de cana-de-açúcar, e a qualquer manifestação de rebeldia eram amarrados ao tronco e sofriam todo tipo de tortura. Os fugitivos capturados tinham a orelha cortada e a letra F gravada na testa. Como reação a essa humilhação, aumentou o número de fugas, e a melhor forma de resistência foi a organização dos quilombos. O mais famoso, o de Palmares, recebeu tantos fugitivos que chegou a ter 30 mil habitantes. Sob o comando de Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares, vai resistir durante 64 anos.

Com a decadência da indústria açucareira no nordeste muitos escravos são deslocados para a extração de ouro em Minas Gerais. E em Ouro Preto a teoria de inferioridade intelectual dos negros vai cair por terra, através do primeiro gênio brasileiro, Aleijadinho.

Com o crescimento das economias urbanas, os escravos passam a ser utilizados em outras funções nas cidades, como a produção e venda de produtos artesanais, ou o transporte de cargas.

A miscigenação aumenta, nasce o sincretismo religioso através das Irmandades dos Homens Pretos e de terreiros de Candomblé e Umbanda. Os escravos enriquecem o idioma português e fecundam a cultura brasileira com seus temperos, ritmos e danças, com a percussão de seus tambores, criando aqui os vistosos maracatus, as congadas, o jongo, a capoeira, o frevo e o samba.

Durante três séculos produziram as riquezas do país nos canaviais, nos garimpos e nas lavouras de café, condenados a viver na pobreza. Nessa vida de sofrimento e resistência, eles conservaram a integridade de sua condição humana, sonhando com o fim da escravidão.

Com o crescimento do movimento abolicionista e a pressão internacional, o Brasil será o último país a libertar seus escravos, em 1888. Mas após a assinatura da Lei Áurea pode-se dizer que acabou a escravidão?

Ela deixou uma marca tão profunda de preconceito racial, que impediu a elevação dos negros a uma condição de igualdade na sociedade brasileira. Eles continuaram escravos da relação de inferioridade econômica em relação ao homem branco, e do descaso histórico pela cultura afro-brasileira. A prática da Capoeira seria crime previsto no Código Penal até 1937, quando é liberada. E as tradições afrobrasileiras continuam vistas como cultura inferior, “coisa de preto”.

Hoje a Constituição Brasileira assegura a igualdade de direitos a seus cidadãos, sem preconceito de raça, opção religiosa, sexo ou cor. Mas a igualdade perante a lei não assegura aos afro-descendentes condições dignas de vida.

O Governo Brasileiro tenta resgatar essa dívida social, através do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, e a criação de cotas nas universidades para estudantes afrodescendentes. Mas um trabalhador negro com formação universitária ainda recebe salário menor que um trabalhador branco exercendo a mesma função.

Hoje 45% da população brasileira é afrodescendente. Muitos tiveram ancestrais reis e rainhas, mas por causa da melanina, hoje são apenas reis da ralé, da favela, da fome, da marginalidade, do trabalho pesado, da cozinha, do salário mínimo e do desemprego.

O mundo reconheceu a escravidão e o tráfico negreiro como um crime contra a humanidade, o Papa João Paulo II reconheceu a responsabilidade da Igreja nesse lamentável episódio da história da civilização, e o Presidente Lula, em comovente viagem à África, pede perdão pela escravidão no Brasil.

Mas não cabe apenas ao governo reconhecer essa dívida social. Cabe a nós, cidadãos brasileiros, em respeito à origem comum da raça humana e à nobreza do leite da mãe negra que amamentou nossos antepassados brancos, restaurar os direitos dos afrodescendentes, fazendo com que eles possam andar de cabeça erguida como nossos irmãos, através da promoção da igualdade racial.

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