IAMANDU E JACI. O SOPRO DA CRIAÇÃO.

CARNAVAL 2019

GRES ROSA DE OURO

 INTRODUÇÃO:

O projeto carnavalesco foi inspirado na mitologia guarani, que se insere dentro de um quadro maior da mitologia tupi.

Trata-se da versão guarani e, portanto, de suas crenças mitológicas, sobre a criação da humanidade onde, uma conversa fictícia entre o narrador e um pajé, à beira de uma fogueira, o líder religioso indígena explica ao homem branco como, na visão da mitologia, o mundo e os primeiros humanos foram criados.

JUSTIFICATIVA:

Falar de um tema indígena é contar a história do nosso povo. Afinal, somos todos indígenas. Outros conjuntos étnicos, africanos, europeus… foram misturados ao nosso povo ao longo da história. Mas a raiz do povo brasileiro são os povos indígenas e todas as suas diversificações.

Vivemos em uma sociedade onde a mitologia dos Orixás e as mitologias de origens européias (grega, romana, nórdica) são retratadas em filmes, novelas, séries de TV e muitos livros.

A mitologia indígena pouco é explorada e estudada no Brasil, principalmente nos sistemas de ensinos espalhados pelo país.

Trata-se de uma mitologia muito rica, muito diversificada e muito bonita de se entender e admirar.

O Grêmio Recreativo e Escola de Samba Rosa de Ouro propõe com esse enredo um maior valor ao que o velho índio nos conta, o pajé na beira da fogueira, pois é assim, através da história oral, que o nosso povo repassa a sua própria história.

Vamos valorizar o nosso povo, a nossa história e o nosso passado!

SINOPSE:

Iamandu era o Deus trovão. E foi ele quem criou o mundo. Criou com a ajuda de Jaci, a deusa lua.

O velho pajé, em volta da fogueira, me contou que Iamandu desceu à terra, numa montanha em Areguá, no Paraguai. De lá de cima, criou tudo que se pode ver na terra, os animais, os mares, os rios, as plantas, tudo mesmo…No céu, ele colocou as estrelas…

Iamandu então teve a ajuda de Jaci, a deusa lua, para criar a humanidade. Para que eu entendesse, o pajé me disse que eles se casaram para criar, assim, a humanidade..Não sei ao certo se era casamento mesmo, como conhecemos.

Iamandu e Jaci, em um ritual, fizeram várias estátuas de argila, com figuras de homem e de mulher. Além da argila, eles usaram vários elementos da natureza. Depois de soprar vida nas formas humanas, Iamandu e Jaci as deixaram com espíritos bons e ruins.

Os primeiros humanos criados foram Rupave e Sypave, pai e mãe dos povos, respectivamentes. Rupave e Sypave tiveram três filhos e muitas filhas. Não é a toa que existem mais mulheres do que homens na América do Sul.

O primeiro filho foi Tumé Arandú, considerado o mais sábio e um grande profeta  guarani.

O segundo filho foi Marangatu, muito generoso e benevolente com seu povo. Marangatu era pai de Kerana, a mãe dos sete monstros legendários do mito guarani.

O terceiro filho de Rupave e Sypave foi Japeusá, considerado um mentiroso, ladrão e trapaceiro. Japeusá fazia tudo ao contrário para confundir as pessoas e tirar vantagens delas.

Japeusá cometeu suicídio, afogando-se. Acabou sendo ressuscitado como um caranguejo. Desde então, todos os caranguejos passaram a andar para trás, como Japeusá.

Das filhas mais notáveis de Rupave e Sypave estava Porâsy, uma mulher notável por sacrificar sua própria vida para livrar o mundo de um dos sete monstros lendários.

O pajé me contou que, os sete monstros que Kerana teve se deu por conta de sua captura por Tau, um espírito do mal que fez com ela os sete filhos que foram amaldiçoados por Arasy e, todos, exceto um, nasceram como monstros horríveis.

O pajé me explicou, um a um, o significado de cada monstro.

Tinha o Teju Jagua, que é o deus ou espírito das cavernas e das frutas.

Tinha o Mboi Tu’i, que é o deus ou  espírito dos cursos de água e das criaturas aquáticas.

Também tinha o Moñai, que é o deus ou espírito dos campos abertos. Ele foi derrotado pelo sacrifício de Porâsy.

O Jaci Jaterê, deus da sesta era o único dos sete que não virou monstro.

O Kurupy é o deus da fertilidade e da sexualidade.

O Ao ao é o deus dos montes e montanhas.

E, por último, e mais tenebroso, tinha o Luison, que é o deus da morte, e de tudo que é relacionado a ela.

E assim, seguiu-se a vida guarani, da América do sul para toda a terra. Pois daqui surgiu o mundo, como mesmo me contou o pajé.

Carnavalescos: Ruan Morais de Lucena e Maria do Rosário

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global, 2012. link. [1. ed., 1947.]
  • CLASTRES, Hélène. Terra sem mal, o profetismo tupi-guarani. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1978
  • COLMAN, Narciso Ramón (Rosicrán). Nande Ypy Kuéra (Nuestros antepasados). San Lorenzo, Editorial Guaraní, 1937. [1. ed., 1929.] Internet Archive.
  • FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
  • GRASSO, Dick Edgar Ibarra. Cosmogonía y mitología indígena americana. Buenos Aires: Ed. Kier 1980. link.
  • LADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: território mbya à beira do oceano. SP: UNESP, 2007 Google Livros.
  • LOPES, A. S. Mitos e cosmologias indígenas no Brasil: breve introdução. In: GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (org.). Índios no Brasil. São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, 1992. link.
  • MÉTRAUX, Alfred. A religião dos tupinambás e suas relações com as das demais tribos tupi-guaranis. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. link.
  • MUNDURUKU, D. Contos indígenas brasileiros. 2. ed. São Paulo: Global, 2005
  • NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.
  • PISSOLATO, Elizabeth. A duração da pessoa: mobilidade, parentesco e xamanismo mbya (guarani). SP: UNESP; RJ: ISA, NuTI, 2007. Google Livros.
  • SOLARI, P. Ymaguaré Mokôi po ha mbohapy. 2. ed. Paraty: Associação Artítico Cultural Nhandeva, 2010.
  • WILKINSON, P. O livro ilustrado da mitologia: lendas e história fabulosas sobre grandes heróis e deuses do mundo inteiro. 2. ed. Tradução de Beth Vieira. São Paulo: Publifolha, 2002