Dois meses e uma linha do trem separavam as escolas de samba Aprendizes de Lucas, fundada em 15 de novembro de 1932, e Unidos da Capela, fundada em 15 de janeiro de 1933. A rivalidade entre as duas agremiações era tamanha que meses antes do Carnaval os moradores de Parada de  Lucas se dividiam e até deixavam de se falar.

A Aprendizes, das cores verde e branca, ficava do lado esquerdo da Estação Parada de Lucas, próxima à Igreja de São Sebastião, seu padroeiro, localizada no número 58 da Rua Parimá. Seus fundadores foram José Serrão, o Cartola – nada a ver com o mestre mangueirense, mas personagem de fundamental importância na agremiação -, Octacílio Marques, Jorge Novais e Claudionor Saldanha. Nos anos 1950 e início dos anos 1960 chegou a ser considerada uma das mais ricas da época, tendo rivalizado com as tradicionais Portela, Mangueira, Salgueiro e Império Serrano.

Em seus 33 anos de existência, a escola foi três vezes vice-campeã do Carnaval Carioca, tal era a sua relevância. Em 1950 e 1951, perdeu para o Império Serrano. Já em 1960, com o enredo “José Bonifácio, patriarca da Independência”, ficou atrás dos campeões Salgueiro, Império Serrano, Portela, Capela e Mangueira, que terminaram empatados. A escola também foi inovadora em seu tempo: introduziu a frigideira em sua bateria, que contava com uma das figuras mais interessantes do mundo do samba, Mestre Gargalhada, português de Cabo Verde, um dos tamborinistas mais criativos da história do samba. Em seus 19 desfiles, a escola nunca deixou  de se apresentar ao lado das principais agremiações da festa.

Do outro lado da linha do trem ficava a Unidos da Capela, das cores azul e branca, as mesmas dos trajes da imagem de sua padroeira, Nossa Senhora da Conceição, cultuada na capela daquela região – por isso o nome Capela. A escola também foi pioneira ao criar um programa educacional na comunidade,  cuja sede era a própria quadra, utilizada como uma escola municipal. A Unidos da Capela – como a Vizinha Faladeira -, formada por trabalhadores da zona portuária, foi a primeira escola a ter entre seus filiados homens de cor branca. Com suas inovações na bateria, ganhou o primeiro título de Bateria Tabajara do Samba, pela dinâmica e precisão na utilização do prato metálico e tacos de madeira para firmar a marcação.

Em 1950, com o enredo “Produtos e costumes da nossa terra”, a Unidos da Capela dividiu com a escola Prazer da Serrinha, de Madureira, o título de campeã pela União Geral das Escolas de Samba do Brasil (UGESB). No mesmo ano, foram realizados mais dois desfiles paralelos no Rio de Janeiro, por duas outras associações: o da União Cívica de Escolas de Samba (UCES), vencido pela Mangueira, e o da Federação Brasileira de Escolas de Samba (FBES), vencido pelo Império Serrano. A conquista do título  na elite do Carnaval Carioca só aconteceu dez anos depois, em 1960, dividido com Salgueiro, Império Serrano, Portela e Mangueira. Em seu último desfile antes da fusão com a Aprendizes, a escola cantou “Oitenta e oito anos de samba”, em 1966.

No fim dos anos 1960, as rivais juntaram forças com o intuito único de sobreviver. Há uma piada no mundo do samba que diz que a Unidos de Lucas, na fusão, pegou o que havia de pior nas duas escolas. A brincadeira se dá porque ao ser batizada aboliu os nomes pelos quais as duas antigas agremiações eram mais conhecidas: Aprendizes e Capela. As cores também ficaram de fora. O verde e brando da Aprendizes e o azul e branco da Capela deram lugar ao vermelho e dourado do Galo de Ouro da Leopoldina – até hoje apelido carinhoso da escola fundada em 1º de maio de 1966.

Fonte: Cadernos de Samba – Marcadas para Viver – A luta de Cinco Escolas – Autor João Pimentel. Editora VERSC BRASIL