G.R.E.S. Chatuba de Mesquita
Carnaval 2025
FUNK-SE QUEM QUISER
Nossa história começa no Rio de Janeiro dos anos de 1960. Enquanto em Copacabana e Ipanema vivia-se de bossa nova e samba jazz, em uma outra área cortada pela linha do trem já se vivia um movimento de bailes que traçou um rascunho do circuito que seria ocupado nos anos 1970 pelos bailes Black e de 1980 em diante pelo movimento funk. Esse movimento era executado por bandas como Devaneios, Brasil Show e Copa 7.
No fim dos anos 1960, o subúrbio do Rio de Janeiro começou a balançar ao som do Soul e do Funk norte americano. James Brown era o grande nome desse novo ritmo importado, que além de swing, também trazia ideais de alegria irrestrita (I Fell Good), sexualidade aflorada (Sex Machine) e de igualdade de direitos raciais (Say it Loud). A palavra FUNK que até então era uma gíria dos negros para mau cheiro, passa a significar ritmo frenético ao som metais e vocais agressivos. Junto com a música vieram o comportamento e os ideais do movimento negro. Nos anos 1970 a mobilização da juventude negra ganha força e se torna realidade no Clube Renascença (nascido no Meier, atualmente no Andaraí), clube criado com o objetivo de reunir a comunidade negra para que ela tivesse sua autoestima elevada. O funk fala para o corpo e para a mente, assopra a revolução no seu ouvido. Ele chega ao Brasil com toda essa carga e aqui ganha outro sentido que nem James Brown imaginaria.
O sucesso dessa Soul Music teve reflexos na dita música popular brasileira fazendo surgir nomes como Tim Maia, Cassiano e Antônio Viana Gomes, conhecido como Tony Tornado. Esse sucesso trouxe reflexos não só na MPB mas também no número de fãs do estilo, como Newton Duarte, que se tornou radialista, ganhou o apelido de Big Boy e criou junto com Ademir Lemos o Baile da Pesada, em uma cervejaria chique da zona sul, Canecão. O estrondoso sucesso do Baile da Pesada fez surgir vários bailes do mesmo estilo por toda Zona Norte, como a Noite do Shaft, no Renascença. O grande número de bailes abriu as portas para uma nova profissão: os M.Cs. (acrônimo para Mestre de Cerimônias) que é o apresentador do evento, o que o conduz do início ao fim.
Clubes, ginásio, associações atléticas passam a abrigar as festas negras, assim muitas histórias negras se desenharam, sobretudo no extraordinário modo de dançar e de reinventar a liberdade nas performances do corpo. Sob o comando de grandes equipes som, como a Soul Grand Prix, Cash Box, Furacão 2000, entre outras, a população negra e pobre lotava os bailes de clubes da Zona Norte e do subúrbio da cidade.
Na década de 1980, já com os bailes black e soul explodindo por todas as cidades, surge nos Estados Unidos um gênero musical oriundo das batidas da Roland TR-808 (um compositor de ritmos programáveis) e dos versos do hip hop, esse gênero foi batizado de Miami Bass, que já nasceu contra cultural, uma resposta à música das grandes gravadoras e um grito de ‘eu estou aqui’ de comunidades, grupos sociais e de empoderamento étnico. Os aparatos tecnológicos, desta vez mais portáteis e acessíveis, podiam ser utilizados em quartos e pequenos estúdios caseiros, o que possibilitou a amplificação e protagonismo de vozes, até então desconhecidas, vindas de periferias e favelas pelo mundo. No Brasil, a chegada de sintetizadores, amplificadores semi profissionais e discos de vinis com samples e bases do hip hop e rap norte americano, permitiram a apropriação do gênero Miami Bass, onde tínhamos músicas americanas tocadas em versões instrumentais com refrãos gritados pelo público dos bailes em português. Vale enfatizar que este foi um dos fatores que culminou no nascimento do funk carioca, ali no final dos 1980 e começo dos 1990. Pode-se dizer que com o Miami Bass o funk deixa de ser elétrico e nasce o funk eletrônico.
Apesar do grande sucesso, o funk brasileiro não passava de adaptações de músicas estrangeiras com letras em português, a virada artística se deu com o surgimento do “Tamborzão”, um som genuinamente nacional oriundo dos atabaques de centros de religião afro descendentes, dando início a composições genuinamente brasileiras.
O funk enquanto estilo de vida juvenil se define em meados da década de 1990. Até então, os jovens não se identificavam como “funkeiros”. A partir do sucesso dos Mestres de Cerimônia (MCs) nasce o funk como marco identitário e fator de socialização para os segmentos juvenis.
No início dos anos 2000, o funk é associado a uma onda de violência, como arrastões e assaltos que tomam o Rio de Janeiro e com esse cenário o Estado decide proibir os bailes funk no Rio de Janeiro, ou seja, os grandes bailes dos clubes da Zona Norte e Baixada deixam de existir. Se o poder público proíbe os bailes funk, esses bailes vão passar a existir onde esse poder não existe: dentro das comunidades, próximo ao tráfico. Essa aproximação do funk com os “donos das comunidades” e cada vez mais longe do Estado, fez surgir um novo estilo de funk: o funk Proibidão.
A mesma mídia que atacava o funk, dizendo que o mesmo incitava a violência, foi a mesma lhe trouxe a redenção, pois nos anos 90, o funk sai dos subúrbios e invade os programas de auditório nas TVs conquistando o Brasil, mostrando a todos que sim, o funk é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado.
Já consolidado nos anos 2000, o funk ingressa numa fase marcada por músicas com conotação erótica, cujas músicas giram em torno da conquista sexual e da exaltação à masculinidade, do homem conquistador e infiel. Como resposta, as mulheres passam a produzir e apresentar suas próprias músicas, em que afirmam a independência e liberdade.
Como manifestação de uma cultura popular negra, o funk revela toda sua força, tendo como marca, a capacidade de se adaptar e se estabelecer no cenário do consumo cultural, mesmo diante das incoerências e caráter contestatório, o funk prossegue como alternativa identitária e afirmativa para muitos jovens brasileiros pobres e negros.
Mais que um gênero musical, o funk é um estilo de vida para uma parte da juventude brasileira. Amado e odiado, o funk se insere no complexo diálogo que vai muito além do jogo dicotômico entre perseguição e resistência, adesão e rejeição. Talvez a grande riqueza do funk seja a possibilidade de expressar sua realidade e ambiguidade em caráter de pura festa.
O funk é uma manifestação cultural: Significa que foi feito pela sociedade, para a sociedade, geralmente por músicos sem formação profissional, de forma espontânea e acessível para todos os públicos. Segundo dados do Data Folha, o funk é a música mais ouvida entre os jovens brasileiros de 15 a 25 anos; 77% escutam funk todos os dias e 50% vão ao baile pelo menos uma vez por mês.
No carnaval de 2025 o G.R.E.S. Chatuba de Mesquita homenageia a segunda maior manifestação cultural do Rio de Janeiro (atrás apenas do Carnaval). Venha se divertir com os graves do batidão do nosso desfile e FUNK-SE QUEM QUISER.
Autores:
– Alexandre Costa
– Lino Sales
– Marcus do Val

