Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Engenho da Rainha
Carnaval 2026
SANTA ROSA: NEGRO, MODERNO, PLURAL
APRESENTAÇÃO
O GRES. Acadêmicos do Engenho da Rainha vem homenagear Tomás Santa Rosa, um dos mais importantes nomes do Teatro Brasileiro. Santa, para os íntimos, enfrentou o preconceito racial para comprovar o seu valor artístico e modernizou a cenografia teatral no Brasil.
“Meu caro Santa Rosa, que cenário
diferente de quantos compuseste” *
Com seu talento múltiplo, foi artista plástico, designer, ilustrador, pintor, gravador, professor, decorador, jornalista, crítico de arte, além de figurinista e cenógrafo: Santa era um, mas era muitos!
“Que retrato de ti legas ao mundo?
Se são tantos retratos, repartidos” *
Além do teatro, destacou-se também por revolucionar a ilustração dos livros no país. Sua atuação é considerada decisiva para a modernização gráfica das editoras no Brasil.
“Meus livros são teus livros, nessa rubra
capa com que os vestiste, e que entrelaça” *
Seu traço ilustrou a capa de Menino de Engenho, escrito por seu grande amigo José Lins do Rego.
Hoje abre-se o rubro livro do nosso pavilhão para que a trajetória de Santa Rosa seja inspiração para tantos outros meninos do Morro do Engenho!
“Os negros, nos murais, cumprem o rito
litúrgico do samba: estão contando
a alegria das formas, trismegisto
princípio de arte, a um teu aceno brando.” *
No ano em que se completam sete décadas de sua partida, a Primeira Academia sobe ao palco, monta o cenário e veste os seus figurinos para homenagear Tomás Santa Rosa, negro artista plural, moderno e genial!
“em movimento rápido se fecha
na rosa de teu nome, claro véu,
ó Tomás Santa Rosa… E em Nova Delhi,
o convite de Deus: pintar o céu.” *
* Versos retirados do poema A um morto na Índia, escrito por Carlos Drummond de Andrade após a morte de Tomás Santa Rosa.
JUSTIFICATIVA
Tomás Santa Rosa é um dos mais multitalentosos artistas plásticos brasileiros. Deixou um vasto legado que infelizmente não costuma ser reverenciado e celebrado em nosso país da forma como merece.
Nascido no contexto pós-abolicionista, Santa Rosa enfrentou o preconceito racial para se tornar um gigante das artes visuais em seu tempo. Com apenas 9 anos, participou em uma exposição artística pintando um docel de São Francisco Assis, santo de sua devoção. O governador da Paraíba propôs custear os estudos do menino na Europa, oferta recusada por sua mãe, Dona Maria Alexina.
Tornou-se então autodidata. E aos 23 anos, após participar de uma exposição modernista em Maceió, mudou-se para o Rio de Janeiro, capital cultural do país naquela época. Em terras cariocas, viu desabrochar o seu sonho de artista. Se as adversidades da vida lhe foram dolorosas, também o mantiveram em movimento constante. Santa Rosa lia, desenhava, pintava, escrevia e produzia cenários e cultura. Seu talento era tão grande que se espalhou por vários fazeres e saberes.
Afromodernidade potente que reivindicou seu lugar de fala nas telas, nos palcos, nas capas e páginas dos livros. Diziam que se inspirava em Picasso. Ao contrário, Picasso era quem se apropriava do geometrismo da arte africana, essência ancestral que corria nas veias de Santa Rosa. Pintou cenas de africanidades e produziu cenários e figurinos para o Teatro Experimental do Negro (TEN), iniciativa que colocou a negritude em protagonismo e lhe permitiu explorar ainda mais suas referências estéticas africanistas.
Pai do livro moderno no Brasil! Santa revolucionou a arte de fazer livros e imprimiu seu traço marcante nas capas de mais de 300 livros publicados. Os principais romancistas e poetas nacionais tiveram seus textos ilustrados por suas mãos. Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos e tantos mais… De José Lins do Rego, amigo dos tempos de anonimato, ilustou diversos livros, dentre eles o clássico Menino de Engenho.
Foi mesmo no teatro que Santa Rosa conheceu seus maiores êxitos artísticos. Pode-se dizer que antes dele, não havia cenografia! Os cenários eram apenas telões pintados atrás de algum mobiliário. Santa revolucionou os palcos brasileiros com a utilização da luz como ferramenta dramática e os diferentes planos tridimensionais de Vestido de Noiva. Marco da modernidade teatral no Brasil, os jornais publicaram que a peça de Nelson Rodrigues não teria o mesmo sucesso sem os cenários de Santa Rosa, que acabou sendo considerado pela crítica como co-autor da obra. Fez história e ficou conhecido como primeiro cenógrafo moderno brasileiro. A experiência teatral levou Santa Rosa ao carnaval. Foi responsável por ornamentações da folia momesca, decorando as ruas com negros batuqueiros e sambistas, além de figuras típicas do carnaval urbano carioca.
E no palco do carnaval, o Engenho presta esta justa homenagem: acende os refletores para lançar luz sobre a vida e a obra do menino que desabrochou em Rosa negra, moderna e plural.
SINOPSE
O espetáculo vai começar! De um pavilhão alvirrubro, abre-se o livro para a mais bela trajetória narrar. Tomás Santa Rosa, contador de histórias em traços, cores e formas, construtor de sonhos e ilusões. Arte africana corre em suas veias, essência e herança cultural. Sua obra evidenciou a potência do grafismo geométrico ancestral.
Menino de Engenho que já nasceu artista na Paraíba. Aos 9 anos encantou o Governador! Quis mandá-lo estudar arte no exterior, no que respondeu a mãe: “- Deixo não, meu senhor!” E o menino aqui ficou… E aprendeu com tudo o que a vida lhe ensinou! Autodidata, tornou-se pintor. Em seus pincéis, a preocupação social de quem sentiu na pele o preconceito racial. Enxergou a sua gente: pintou os Pescadores de Tambaú, as Lavadeiras da Paraíba, Baianas, Festa e Batismo no Candomblé, retratou cenas de fé. Em óleo sobre tela, até Roda de Samba ele pintou!
Partiu pro Rio de Janeiro, sonhador… e aqui começou a ver reconhecido seu valor. Nas páginas dos livros, Santa defendia seu ganha-pão: Macunaíma, Paulicéia Desvairada, Cacau, Jubiabá, Capitães da Areia, O País do Carnaval, Vidas Secas, Riacho Doce, Sagarana, Memórias do Cárcere, Lampião, Cangaceiros… seu traço moderno atravessou estas e muitas outras histórias inesquecíveis da literatura nacional. Sem contar os clássicos estrangeiros, como Ana Karenina e A Letra Escarlate. Enfrentou muito Orgulho e Preconceito, mas criou imagens que confessavam os sentimentos e os segredos das palavras. Desenhou as biografias de grandes personalidades. E não se esqueceu da criançada: ilustrou diversos livros infantis.
Evoé! Lançou-se ao teatro em Ásia e espelhou o palco para a lira de Orfeu iluminar. Afromodernidade que desabrochou em três dimensões e o fez brilhar. Vestido de Noiva revolucionou e provou que Santa Rosa era genial! Com o Teatro Experimental do Negro combateu o racismo. Criou cenários e figurinos para peças com “pretagonismo”! Maracatu de Chico Rei, Terras do sem fim, O Filho Pródigo, Recital Castro Alves, Filhos de Santo: basta de papéis secundários, chegava a hora de quebrar o preconceito estrutural. Dança, canto, jogo ao som da Orquestra Afrobrasileira, em espetáculo que integrou instrumentos de percussão e abriu a música erudita para artistas negros. Aruanda foi teatro em performático ritual.
Um artista popular no palco do carnaval! Criou belas ornamentações para o povo nas ruas brincar. Cenário vivo da cidade, envolvendo os foliões. Blocos, corsos e cordões, grandes sociedades, tantas agremiações desfilaram entre as suas decorações. Malandros, baianas, arlequins, pierrôs e colombinas: reminiscências dos antigos carnavais. Na avenida colorida, o samba entra em cena. Poesia e história em imagens imortais.
Último ato, a cena final. Aquele que não teve mestres tornou-se um mestre em seu tempo.
“Tudo é teatro”, murmura, com seu cigarro no canto da boca. A plateia, lotada de intelectuais e artistas em meio à gente do povo, aplaude de pé! Seja a negra Rosa do teu nome santificada no templo do carnaval. Fecham-se as cortinas. Nos mistérios do Oriente, choram as musas sob rubro véu. A convite de Deus, sobre o Morro do Engenho, de Rosa tinge-se o céu…
Autor da sinopse e Carnavalesco: Leo Jesus
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Carlos Drummond de. A um Morto na Índia. Disponível em https://www.tudoepoema.com.br/carlos-drummond-de-andrade-a-um-morto-na-india/.
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BUENO, Luís. Capas de Santa Rosa. São Paulo: Edições Sesc São Paulo e Ateliê Editorial, 2015.
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DRAGO, Niuxa Dias. A cenografia de Santa Rosa. Rio de Janeiro: Rio Books, 2015.
LINS, Álvaro. Algumas notas sobre Os Comediantes. Dionysos, Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, n. 22, Ano XXIV, 1975.
NASCIMENTO, Abdias do. Teatro negro no Brasil: uma experiência sócio-racial. Revista Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, n. 2, 1968. Caderno Especial.

