G. R. E. S. Acadêmicos da Abolição
Carnaval 2025
Enredo: OS REIS DA RUA
Concepção: Antônio Gonzaga, Jovanna Souza, Pedro Duque, Raquel Martins e Thayssa Menezes
ARGUMENTO
Nas ruas, esquinas e encruzilhadas reinam corpos mascarados que se encantam e ressignificam o cotidiano. Em cada rua, em suas curvas e dobras, acende-se as velas e vela-se as vidas, regando o chão suburbano com marafo e folia. A rua nada mais é que a simplicidade do que se passa por ela, o ordinário que se faz extraordinário. É na diversidade dos corpos que a ocupam que encontramos as escrevivencias dos saberes que resistem a beleza do dia-a-dia, dividir o pão, o suor e as fagulhas de alegria.
A rua também se apresenta como espaço democrático, é de quem nasce, se cria e morre nela, mas também é de quem faz dela um lugar de atravessamento, do rito e da invenção de mundos. A rua é das mulheres, dos homens, das crianças e de quem ousar desafiar a sua própria lógica de existência, transgredindo o que tá posto, tecendo o emaranhado de histórias e sagacidade, disputando nas frestas e festas o banquete dos excluídos. Eis a rua e seus protetores, a gargalhada que ecoa no silêncio da madrugada, farofa, marafo e mel para adoçar os saberes e sabores da vida, eis o povo de rua e da rua.
Hoje, a Acadêmicos da Abolição vem coroar os descoroados, os corpos que se encantam, que se encontram nas vestes sagradas da existência e se materializam na coletividade das urgências, os bate-bolas.
A rua é nossa, nós somos a rua, eis aqui dinastia suburbana que insiste em colocar a máscara para sentar em seu trono.
Eis os reis, os reis da rua!
SINOPSE
Eu sempre soube que eu era um rei. Que a rua era minha, que a cidade é da gente e ninguém pode tirar. A gente que é do Rio, da rua, do mundo, sabe que é assim. Eu não ando só, pois meu santo é forte e o asfalto me protege.
São Jorge, Tranca Rua e Zé Pilintra. Vela acesa, fumaça, guias, terços e patuás. Minha alma tem essência e cheiro de macumba. A máscara que cobre o meu rosto não esconde, mas revela quem eu sou. Sou bate-bola, sou fogos de artifício, malandro e catiço. Sou a farra, o riso, o medo, o som, sou a própria festa.
A minha Turma, lá da Abolição, faz da vida o carnaval, ou melhor, faz do carnaval a sua vida. Pra gente, isso é um ritual, uma forma de reinvenção do mundo que existe no seio do subúrbio carioca. Sombrinhas, bandeiras, bolas que encontram o asfalto num duelo perfeito. A roupa se faz manto e coroa os reinados que sobrevivem as mazelas da vida. Todo menino é um rei e os mais novos querem ser como a gente, garantindo assim a tradição e a perpetuação desses saberes. Tá no sangue a dinastia das ruas. Coroados fomos, os reis da rua.
Saímos.
Vamos passando, na euforia das batidas e na enérgica magia que conduz os caminhos. O tênis branquinho ostenta nossa vaidade e a nossa identidade… E o manto, esse ano ele está ainda mais bonito, porque foi todinho bordado, paetê por paetê, e nosso emblema pintado à mão. Cada ano é um ano, mas o verde e branco dessa vez ganhou meu coração. O tema do ano é a nossa própria história, e eu confesso que nunca vesti uma roupa tão bonita. A máscara, as luvas, as meias, cada pedaço da roupa entrega o empenho de cada um de nós para ganharmos as ruas. A turma tá correndo o mundo, dobrando esquinas, passando pelas fachadas, pelos portões dos casarios e pisando em concreto, piche e caquinhos. A gente sente e ouve cada canto de todo canto da cidade.
Esse encantamento eu herdei dos mais velhos. Sempre fui curioso e meu pai me dizia que essa história nasceu das festas europeias, das tradições de Portugal e das folias de Reis, mas que o bate-bola mesmo, da forma que a gente conhece, não tem nada de Europa, é carioca e suburbano mesmo. É de gente preta, é de periferia. Ele falava com orgulho e meu olho brilhava mais do que a corrente de ogum que ele pendurava no pescoço. Hoje sou eu que ensino nossa arte pro meu menor, porque festa de bate-bola é arte no sentido mais puro. É a manifestação das nossas energias. É sinergia, arrepio. É o incômodo que fascina e a liberdade que desafia. E nisso, a gente é rei de verdade.
Hoje, a gente resiste e festeja num palco maior, a Intendente Magalhães, que se enfeitou de todas as ruas do subúrbio do Rio pra receber a gente. Todas as turmas estão chegando e as cores de cada dinastia pintam as calçadas com suor, poder e farra. Eu sempre gostei de escola de samba, meu avô era velha guarda e admirava a garbosidade que a tradição carrega. O terno sempre alinhado, o cabelo bem cortado, o sapato mais bonito. Essa vaidade eu herdei e esse orgulho também. Ver nossa manifestação sendo reverenciada pelo samba é ter certeza que, no final das contas, a história da cidade é a gente que faz e conta. O Rio que deságua no peito de cada carioca é um eterno carnaval, é samba-enredo, funk nos bailes, charme gingado dos becos do nosso lugar, as bruxas, clóvis, gorilas e bate-bolas. O Rio é de quem é ousa a erguer a bandeira. O bonde todo está na pista porque hoje, dia 04 de fevereiro, é noite de coroação. E na alegoria das nossas vidas, o trono da festa é nosso. Salve os reis da rua, salve nossa a nossa (re)existência.
Referências:
RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas – Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.
Simas, Luiz Antonio. S598c. O corpo encantado das ruas [recurso eletrônico] / Luiz Antonio Simas. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.
CARNEIRO, Sandra de Sá. 2007. “Carnaval na periferia: as turmas de Clóvis”. Textos escolhidos de cultura e arte populares, vol. 4, n. 1: 144-152.
PEREIRA, Aline Valadão Vieira Gualda. 2009. “Os bate-bolas do carnaval carioca contemporâneo: dinâmicas e disputas simbólicas”. In: CAVALCANTI, Maria Laura; GONÇALVES, Renata (Org.). Carnaval em múltiplos planos. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009.
