Conheça o Enredo da Siri de Ramos para 2025

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SONS E RITMOS DA CAPITAL DA ENCANTARIA

Ei, piqueno!” Se aproxime mais. Tu já ouviste falar das festas da minha terra? São Luís, é sim, São Luís do Maranhão. Pra começar, nesse mundão de país que é o Brasil, São Luís é a única cidade fundada por franceses, tá bom pra tu? Deixando de miguelagem, as festas daqui reúnem o que há de melhor de toda a cultura brasileira, elas são o retrato de nossa formação étnica. O povo ludovicense (desculpe a afronta, mas é assim que quem nasce em São Luís é chamado) teve sua formação baseada nos índios, nos negros que chegaram escravizados e nos brancos colonizadores, como havia dito, a cidade foi fundada por franceses, passou para o domínio holandês para enfim ser colonizada pelos portugueses. E tanta diversidade tinha que influenciar no folclore local (com a criação de lendas incríveis) e na cultura de modo geral e nos festejos populares.

Marrapá! Falar das festas de São Luís é o mesmo que falar da fé e religiosidade do nosso povo. Vamos começar pelo Cordão de Reis ou como é conhecido aqui na capital: Reis. Essa manifestação folclórica que sempre ocorre no ciclo natalino, se encerra no dia 06 de janeiro. A festa é um cortejo com personagens como Reis, Rainhas e anjos seguidos por uma orquestra com roupas coloridas. A festa representa a caminhada dos reis Magos até onde teria nascido o menino Jesus. Outra festa de cunho religioso-cristão com ampla difusão e impacto popular é a festa do Divino Espírito Santo. Em São Luís essa festa tem um diferencial da maioria das outras festas do Divino em todo Brasil: ela é estreitamente identificada com as mulheres, e em especial com as mulheres negras ligadas às religiões afro-brasileiras, como o tambor de mina.

Falando de Tambor de Mina, essa religião onde o culto dos Vuduns se mistura ao culto dos Orixás, Gentis, Nobres, Caboclos e Encantados foi trazida da África por escravas. Grande parte dos participantes do culto são do sexo feminino e por isso, alguns falam num matriarcado nesta religião. Os homens desempenham principalmente a função de tocadores de tambores. Há dois modelos de Tambor de mina, os de Jeje (praticado na Casa de Mina) e os de Nagô (praticado na Casa de Nagô).

Mas ééééguas! Se tu queres uma festa com muita zueira, com muita gente esparrosa, o nosso São João é essa festa. Até temos quadrilhas, mas quem manda na festa é o boi. O Bumba Meu Boi é uma manifestação popular tombada pelo Patrimônio Histórico. Há mais de 500 grupos de boi no Maranhão, divididos em vários diferentes sotaques (zabumba, orquestra, matraca, costa de mão e baixada). Nessa festa temos o enredo trazido pelo branco, o ritmo e os tambores do negro e a dança do índio. O auto- popular do Bumba-Meu-boi conta a história de Catirina e do nego Chico às voltas com o boi favorito do seu Amo. Após muita confusão o boi que havia sido morto, acaba ressuscitando e tudo termina em festa. O Bumba-Meu-Boi de verdade nasce de pagamento de uma promessa feita ao “glorioso” São João, mas nas festas juninas maranhenses também se rendem homenagens a São Pedro e São Marçal.

Uma das atrações dos festejos juninos é o Cacuriá, dança típica do Estado que surgiu como parte das festividades do Divino Espírito Santo. É uma dança de roda feita em pares com passos sensuais onde se abusa do improviso.

Você quer saber se acabou? Té doido muleque, é? Se o mês de junho é marcado com as festas em homenagem a São João, São Pedro e a São Marçal, para homenagear meu santinho querido, São Benedito, basta tocar um tambor. As narrativas da origem do tambor de crioula em regra se referem a São Benedito ou ao período da escravidão, ou a ambos. São Benedito aparece no teatro das memórias como um escravo que foi à mata, cortou um tronco de árvore e ensinou os outros negros a fazer e a tocar o tambor. Outras vezes ele surge como o cozinheiro do monastério que levava comida escondida em suas vestes para os pobres. Em todo caso, considerado o santo protetor dos negros no Maranhão, São Benedito é homenageado com toques de tambor. O Tambor de Crioula é uma das manifestações religiosas mais populares em todo Maranhão. Parte da tradição da cultura afro-brasileira, o Tambor de Crioula do Maranhão -ou Punga – é uma forma de expressão cultural que envolve dança circular, canto e percussão de tambores. A prática, que é considerada um Patrimônio Imaterial Brasileiro, pode ser realizada em diversos locais, que variam entre praças, terreiros e eventos.

Quantos ritmos cabem em uma cidade? Eu diria que tantos quantos o povo aceitar de coração. Há inclusive ritmos que nasceram fora e foram ressignificados aqui em São Luís, como o caso do reggae, ritmo nascido na Jamaica e que na década de 70 chega para se tornar um grande sucesso aqui, em outra ilha. Mas quer saber? Eu tô é tu com o povo que diz que o reggae não é um ritmo maranhense. Eu quero mesmo é curtir uma pedra de responsa. O nosso reggae maranhense tem as suas particularidades, se diferenciando do resto do mundo, São Luís é o único lugar em que o reggae é dançado a dois, o famoso “agarradinho”. Não é atoa que São Luís também é conhecida como a “Jamaica Brasileira”.

Como tu viste piqueno, não há como ficar aziado nessa terra. Tudo aqui emana cor, dança e ritmo, protagonizadas pelo Bumba-meu-boi, mas com espaços para várias manifestações culturais. Nossas celebrações são um resumo da religiosidade, do sincretismo, da miscigenação e da alegria do povo brasileiro. E diante de um cenário desses, o G.R.E.S. Siri de Ramos traz para o carnaval do Rio de Janeiro de 2025 essa fé ritmada pelos tambores, esse swing oriundo das radiolas e das saias rodadas que encantam nossos olhos. No próximo carnaval os ritmos da Ilha do Amor, da capital da encantaria irão desfilar na Intendente Magalhães.

Autores:

Alexandre Costa

Lino Sales

Marcus do Val

 

 

Glossário

– piqueno: corruptela da palavra pequeno. Usado para chamar alguém.

– miguelagem: ato de embromar alguém.

– marrapá: junção da expressão, “mas rapaz!”

– éééégua: nossa.

– zueira: confusão.

– esparrosa: algo que chama atenção.

– Té doido é? : Tu estás doido? , usado quando não se concorda com algo.

– Eu tô é tu: expressão utilizada pra expressar despreocupação.

– pedra de responsa: reggae bom.

– aziado: enjoado, chateado.

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