Seguindo a linha utilizada nos dois últimos carnavais quando cantou Monarco e Cartola na Avenida Intendente Magalhães, a Lins Imperial anunciou o nome de Bezerra da Silva como seu enredo para o Carnaval 2019. O anúncio ocorreu neste domingo (31) durante o retorno do Baile das Rosas, tradicional entre os anos 60 e 70. Durante o evento a diretoria que comandará a escola no triênio 2019/2021 foi empossada. Flávio Mello é o novo presidente administrativo e o carnavalesco Guto Carrilho assinará o desfile.

O novo homenageado da Lins Imperial foi cantor, compositor, violonista, percussionista e intérprete brasileiro dos gêneros musical coco e samba, em especial de partido-alto. Bezerra, como quase todo Silva, é de origem humilde e trabalhador. Cantou a vida simples à margem da sociedade. Através das suas interpretações de forma debochada, ele revelava e denunciava problemas cotidianos de quem mora nas comunidades e é vítima dos que se consideram honestos e justos.

O domingo teve casa cheia e foi marcado pela presença maciça dos integrantes da agremiação, além de ilustres sambistas tais como: o presidente Chiquinho da Mangueira, Helcio Paim, carnavalesco da Unidos da Tijuca, Tânia Índio do Brasil baluarte da Estação Primeira, Milton Cunha, o carnavalesco Eduardo Gonçalves, Sandro Avelar e Heitor Fernandes, diretores da Liesb, entre muitos outros.

Durante a festa, Milton Cunha declamou um texto de apresentação do enredo aos presentes (abaixo transcrito) e foi ovacionado ao final, mostrando que a comunidade e o público aprovaram, e muito, o tema escolhido. A sinopse será entregue aos compositores no próximo mês, juntamente com um tributo ao homenageado. A ala é aberta a qualquer interessado em participar do concurso. A disputa de sambas ocorre a partir de agosto.

A Lins Imperial será a terceira escola a desfilar pela Série B na terça-feira de Carnaval, dia 5 de março, na Intendente Magalhães

 

Fotos: Geissa Evaristo

Lins Imperial

Carnaval 2019

Enredo: Malandro é malandro, Bezerra é da Silva

Carnavalesco: Guto Carrilho

 

Pesquisa e Texto: Mauro Sergio Farias, Raphael Homem

De manhã, antes de o galo cantar no Cantagalo eu já tou de pé para mais um dia.

Eu levanto como que num susto e vejo na laje aquela linha que separa a cidade.

Por mais que eu não queira ver, existe uma linha imaginária repleta de concretude que divide os que tem o poder da fala e os que não podem ter voz.

Do lá de lá os direitos. Do lado de cá o flagrante, o inquérito e o rapa.

Essa desigualdade alimentada todos os dias está refletida em quem eu sou, no que sou.

Eu tive o meu destino traçado por mim e orientado pelas minhas forças ancestrais.

Trabalhei com obra, morei na rua.

Subi e desci o morro.

Ah, se não fosse o samba eu não estaria aqui.

Com o dia raiando, morro minha vida.

Cada passo vira um drible nas crianças que começam a tomar as vielas.

O cheiro do almoço que já começa a ser preparado invade as narinas e eu vou sendo guiado em direção ao bar, ponto-de-encontro da malandragem.

Peço meu pingado e como se tivesse marcado, encontro os meus parceiros cada um seguindo o seu fluxo.

Malandro de verdade é trabalhador.

São produto do morro.

Para o que não vejo, meus parceiros são os meus olhos.

Para o que precisam dizer, eu sou o porta-voz deles.

Isso é o Brasil e é isso que eu canto.

Digo cantando aquilo que caso tivesse oportunidade eu diria falando.

E a cada pingada do meu pingado são vidas que passam a minha frente.

Eu já vi de tudo. Desde Pai Véio 171 até pastor trambiqueiro.

Do malandro que tem que lidar com a nega e com a sogra e que às vezes é feito de televisão, quando a nega resolve lhe adornar com um par de antenas-chifres.

Coisa do amor. Aliás não aguento quando ouço essas coisas de fazer amor. Espero até hoje alguém me dizer onde é a fábrica.

Continuo descendo e logo apontam para mim.

Esse aí é que é o homem.

Como que um código de reconhecimento.

Mal sabe ele que eu sei que ele é o rei dos cheques sem fundo.

Aplico a Lei de Murici.

Cada um sabe por aquilo que lhe convém, cada um sabe de si.

Já vi bandido metido a bicho-solto miando na hora do sapeca-ia-iá.

Dando com a língua nos dentes.

Essa é a diferença do malandro pro otário.

Malandro é malandro e mané é mané!

Alô malandragem, maloca o flagrante, fica na atividade.

Tu sabe que o pai da em cana-dura.

Ah me perdoem pela falta de gentileza.

Muito prazer o meu nome é BEZERRA DA SILVA!