GRÊMIO RECREATIVO ESCOLA DE SAMBA ACADÊMICOS DA ABOLIÇÃO

CARNAVAL 2019

Enredo: “CONCEIÇÃO EVARISTO – A “ESCREVIVÊNCIA” ABOLICIONISTA EM VERSOS, POEMAS E CONTOS.”

SINOPSE

INTRODUÇÃO

O Acadêmicos da Abolição, no carnaval 2019, honrosamente convidará à todos a “uma viagem de cidadania” e a rever uma politica do nosso cotidiano, sobre a raça negra e o processo de abolição sob o prisma de Maria da Conceição Evaristo de Brito.

Nossa escola não se prenderá a narrativa histórica do processo da escravatura do Brasil e nem na narrativa histórica do personagem que conduzirá o nosso enredo. Traremos a tona, por meio dos versos, contos e poemas que darão voz ao povo negro, revisitando o passado e comparando ao presente inspirando-se nas obras e na filosofia de ideais de Conceição Evaristo, traçando um paralelo da vivência abolicionista na história passada e presente do nosso país.

Conceição Evaristo nasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte, vem de uma família muito pobre, com nove irmãos e sua mãe, e teve que conciliar os estudos trabalhando como empregada doméstica, até concluir o curso normal, em 1971, já aos 25 anos. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ. Na década de 1980, entrou em contato com o grupo Quilombo hoje. Estreou na literatura em 1990, com obras publicadas na série “Cadernos Negros”.

É mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Suas obras, em especial o romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007.

Em 2017, Conceição Evaristo foi tema da Ocupação do Itaú Cultural de São Paulo. Conceição Evaristo é militante do movimento negro, com grande participação e atividade em eventos relacionados à militância político-social.

A escrevivência

O termo “escrevivência” criado pela própria Conceição Evaristo definido como a escrita à partir do cotidiano e da experiência pessoal. Para exaltar os sentimentos, as dores, as alegrias, os gritos e os sussurros da população negra. Homens e, sobretudo, mulheres cujas vozes são insistentemente caladas. E através dos contos, poemas e romances de Conceição Evaristo, faremos um grande parâmetro trazendo para o nosso desfile na Intendente Magalhães o reflexo passado e presente da condição do afrodescendente no Brasil.

Algumas das citações de Conceição Evaristo, onde se percebe que a mesma, narra as suas experiências, com as suas escrevivências, vital na construção de sua vida lutando contra as condições de miserabilidade.

“A pobreza pode ser um lugar de aprendizagem, mas apenas quando você a vence.

Se não, é o lugar da revolta, da impotência, da impedição. E aí você não faz nada. Hoje eu vejo que a pobreza foi o lugar fundamental da minha aprendizagem diante da vida Minha literatura não é pior nem melhor do que qualquer outra, só nasce de uma experiência diferente da qual eu me orgulho e que não quero camuflar”.

“Fui uma menina e uma jovem muito curiosa.

Eu via as pessoas conquistando coisas e sempre achei que tinha o direito de conquistar também. A escrita foi sendo o lugar de desaguar o meu desejo. E também a tristeza, o sentimento de injustiça que percebia, mas não sabia definir bem. Desde criança me dava angústia ver minha família trabalhando muito e não ter nada”.

“Não nasci rodeada de livros, mas rodeada de palavras havia toda uma herança das culturas africanas de contação de histórias. Minha mãe fazia bonecas de pano ou de capim para mim e minhas irmãs e ia inventando tramas. Ela recolhia livros e revistas e mostrava para nós, mesmo sem saber ler. Víamos as figuras e inventávamos novas histórias. Meu interesse pela literatura nasce daí”.

“Escrever pode ser uma espécie de vingança, às vezes fico pensando sobre isso.

Não sei se vingança, talvez desafio, um modo de ferir o silêncio imposto, ou ainda, executar um gesto de teimosa esperança”, escreve em Gênero e Etnia: uma escre (vivência) de dupla face”.

Setor 1 – A “escrevivência” real na Pindorama ideal.

O Acadêmicos da Abolição inicia seu carnaval trazendo um Brasil antes mesmo de receber esse nome. Oh Pindorama! Terra que deveria ser livre dos males, terra das palmeiras que favoreciam a um grande espetáculo, um esplendor de belezas (Pindó-rama ou Pindó-retama, origem do tupi. “Terra/lugar/região das palmeiras”; ou pin’dob
(“palmeira”) com “-orama” (“espetáculo”), significando, portanto, “espetáculo das palmeiras”).

Traremos um parâmetro da escrita da Conceição Evaristo, como trazido no poema abaixo, que relata às condições afrodescendentes no país no passado e no presente, em seus poemas e livros com as belezas e riquezas dessa terra, então chamada de Pindorama pelos os primeiros povos que aqui viveram, que foram os indígenas. Uma terra antes do suor e do sangue negro serem derramados nela, no processo de escravidão que esses povos viveram, antes da “invasão de Pindorama”, mais conhecida como “Descoberta do Brasil”.

Nossa escola, por meio do poema de Conceição, mostra que esse banzo trazia um sentimento atônito, de tristeza, dos negros da África sentiam longe do seu país.

Conceição Evaristo em suas obras, exalta a figura da mulher negra continuadamente. Em nosso primeiro setor, o Acadêmicos da Abolição lembrará que as mulheres negras também sofreram muito com a escravidão, embora os senhores de engenho utilizassem esta mão de obra, principalmente para trabalhos domésticos cozinheiras, arrumação doméstica, e até mesmo amas de leite se fez comuns nesses tempos. Os afazeres domésticos e o cuidar dos filhos das sinhás, foi um forte condicionante privado de estruturação patriarcal e hierárquica, durante o período da escravidão. Pautava se no modelo de dominação de classes, definido por padrões de superioridade e inferioridade, a negra escrava mesmo sendo considerada inferior foi quem amamentou os filhos de suas senhoras deixando muitas vezes de amamentar seus próprios filhos. A mulher escrava fazia ponte entre a senzala e o interior da casa grande, representava o ventre gerador. As negras mais bonitas eram escolhidas pelos senhores para serem concubinas e domésticas. Era objeto dos desejos sexuais dos homens, a negra sofria por parte da mulher branca os castigos mais variados e violentos. Se a beleza de seus dentes incomodava a sinhá, mandava arranca-los e assim a violência contra a mulher negra e escrava corria a solta.

“A nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para ‘ninar os da casa grande’ e sim para incomodá-los em seus sonhos injustos” – Conceição Evaristo.

O banzo renasce em mim.
Do negror de meus oceanos
a dor submerge revisitada
esfolando-me a pele
que se alevanta em sóis
e luas marcantes de um
tempo que aqui está.
O banzo renasce em mim
e a mulher da aldeia
pede e clama na chama negra
que lhe queima entre as pernas
o desejo de retomar
de recolher para
o seu útero-terra
as sementes
que o vento espalhou
pelas ruas…

Filhos na rua –
Conceição- Evaristo-
In Cadernos Negros vol. 15

Em meio a tantas regras de obediência a relação entre senhores e escravas mostra se bastante tensa. Não era incomum que muitos cativos resistissem à escravidão. Suicídios coletivos e individuais na senzala e abortos provocados propositalmente por mães escravas eram eventos bastante decorrentes. Por meio desses abortos era uma maneira que a escrava procura “livrar” seu filho da escravidão, pois para muitas era melhor a morte, que viver naquelas condições desumanas e horríveis. E o Acadêmicos da Abolição juntamente com Conceição Evaristo homenageiam essa figura feminina, que sofreu, sendo colocada a margem, mas que lutou e vem lutando pelo seu valor e reconhecimento como cidadãs plenas e livres.

No paralelo entre o passado e presente, nossa Agremiação associa às figuras das negras escravas africanas a personagem contada no romance Becos da Memória onde o personagem Maria Nova se assemelha a autora. Pois Maria Nova sonhava, cresceu e escreveu a história de seu povo.

A obra exalta a figura da mulher negra escravizada no passado e denuncia as condições de vida de muitas mulheres no presente.

A menina crescia. Crescia violentamente por dentro.
Era magra e esguia. Seus ossinhos do ombro ameaçavam furar o
vestidinho tão gasto.
Maria-Nova estava sendo forjada a ferro e a fogo.
A vida não brincava com ela e nem ela brincava com a vida.
Ela tão nova e já vivia mesmo.
Muita coisa, nada ainda, talvez ela já tivesse definido.
Sabia, porém, que aquela dor toda era só sua.
Era impossível carregar anos e anos tudo aquilo sobre os ombros.
Sabia que era preciso pôr tudo para fora, porém como, como?
Maria-Nova estava sendo forjada a ferro e fogo.
Conceição Evaristo – Becos da memória.

A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue e fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem o hoje o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
Vozes-mulheres
Conceição Evaristo.

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.
Recordar é preciso – Conceição Evaristo.

O Acadêmicos da Abolição lembra que recordar é preciso! E que na imensidão dos mares, o sal natural da água tornava- se mai s salgado misturado ao sofrimento, às dores e as lágrimas por tantos negros trazidos de forma tão inóspitas nas viagens negreiras. Baseado no poema de Conceição nossa escola fará uma associação direta das condições adversas que os escravos foram trazidos da África para o Brasil, pelos mares.

Os negros que em sua grande maioria vieram da África, onde poderiam ser considerados “reis” por suas habilidades na caça, pesca, entre outras, como a dança. Com sofreguidão, foram trazidos em condições adversas para a nova terra chamada Brasil, onde sofreram, foram castigados, espancados mas lutaram pelo fim da sua escravidão no processo de abolição.

Nas passagens dos contos abaixo, de Conceição Evaristo, são trazidas essas relações de inferioridade negra, por parte dos brancos.

Um dia o coronelzinho, que já sabia ler,
ficou curioso para ver se negro
aprendia os sinais, as letras de branco
e começou a ensinar o pai de Ponciá. O
menino respondeu logo ao ensinamento
do distraído mestre. Em pouco tempo
reconhecia todas as letras. Quando
Sinhô-moço se certificou de que o
negro aprendia, parou a brincadeira.
Negro aprendia sim! Mas o que o negro
ia fazer com o saber do branco?
Ponciá Vicêncio – Conceição Evaristo.

Filho de ex-escravo, crescera na fazenda levando a mesma vida dos pais.
Era pajem do sinhô-moço.Tinha a obrigação de brincar com ele.
Era o cavalo onde o mocinho galopava sonhando conhecer todas as terras do pai. Tinham a mesma idade.
Um dia o coronelzinho exigiu que ele abrisse a boca, pois queria mijar dentro.
O pajem abriu.
A urina do outro caia escorrendo quente por sua goela e pelo canto de sua boca.
Sinhô-moço ria, ria.
Ele chorava e não sabia o que mais lhe salgava a boca, se o gosto da urina ou se o sabor de suas lágrimas.
Conceição Evaristo – Ponciá Vicêncio.

Meu rosário é feito de contas negras e
mágicas
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe
Oxum e falo
padres-nossos, ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos
batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha
infância. […]
As contas do meu rosário fizeram calos
nas minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas
fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
[…]
Conceição Evaristo – Poemas da recordação e outros movimentos.

Conceição Evaristo também relata o misto de fé e dor vividos pelo povo negro no passado, e o cenário para esses longínquos batuques aconteciam nas matas por serem locais de difícil acesso aos brancos.

Os escravos reuniam-se e começaram a formar os Quilombos que eram locais seguros e escondidos no meio da mata, iniciando um trabalho autônomo das comunidades negras, livre da submissão dos grandes proprietários antes e depois do processo de abolição.

As matas também foram os locais onde os negros contemplavam a natureza, realizavam seus cultos religiosos, resgatando um pouco de suas ancestralidades exaltando seus orixás.

Setor 2 – As leis abolicionistas. Mitos passados, conflitos a serem vencidos.

“…no fundo do calumbé
nossas mãos sempre e sempre
espalmam nossas outras mãos
moldando fortalezas e esperanças,
heranças nossas divididas com você:
malungo, brother, irmão”.
Malungo, brother, irmão – Conceição Evaristo.

O nosso segundo setor traz o poema de Conceição Evaristo que confronta a fala de um poeta brasileiro que afirma a não existência da literatura negra.

Conceição Evaristo advoga o direito de criar um discurso literário a partir a Estória dos descendentes dos africanos no Brasil.

O Acadêmicos da Abolição apresenta o contexto histórico denunciado na obra de Conceição Evaristo. Sua escrevivência narra às experiências de mulheres e homens negros diante das relações raciais brasileiras.

A partir do século XIX começou a ocorrer no Brasil, por parte do ingleses, uma pressão para que a escravidão fosse abolida em nosso país. Os ingleses queriam os negros libertos, para que o mercado consumidor fosse ampliado, já que liberto os negros teriam renda.

As pressões internas, por volta de 1880, a favor da abolição da escravatura também começaram a acontecer. A classe média e alguns intelectuais, começaram a defender, por meio de manifestações, o fim da escravidão. Com a crescente dos movimentos populares os políticos brasileiros foram, aos poucos, aprovando leis para “amenizar” a escravidão no Brasil.

Nossa escola recordará as leis abolicionistas como: A Lei Feijó, também conhecida como Lei de 7 de novembro de 1831 , lei que proibiu a importação de escravos no Brasil, além de declarar livres todos os escravos trazidos para terras brasileiras a partir daquela data. Lei Eusébio de Queiroz de 1850 proibiu a chegada de embarcações negreiras no país. Lei do Ventre Livre de 1871, estipulou que todos os filhos de escravos que nascessem após o ano de publicação daquela lei fossem considerados libertos, porém, o liberto deveria permanecer trabalhando na propriedade do senhor até 21 anos de idade. Os abolicionistas viram essa lei como paliativa, já que os “libertos”, trabalhariam para os seus “donos”, durante uma grande parte de sua juventude, sendo explorados ao máximo, por estarem no suprasumo de uma faixa etária muito produtiva.

Enquanto a inquisição
Interroga
a minha existência
e nega o negrume
do meu corpo-letra
na semântica
da minha escrita,
prossigo.
Assunto não mais
o assunto
dessas vagas e dissentidas
falas.
Prossigo e persigo
outras falas,
aquelas ainda úmidas,
vozes afogadas,
da viagem negreira.
E apesar
de minha fala hoje
desnudar-se no cálido
e esperançoso sol
de terras brasis, onde nasci,
o gesto de meu corpo-escrita
Levanta em suas lembranças
Esmaecidas imagens
de um útero primeiro.
Por isso prossigo.
Persigo acalentando
nessa escrevivência
não a efígie de brancos brasões,
sim o secular senso de invisíveis
e negros queloides, selo originário,
de um perdido
e sempre reinventado clã.
Poema Inquisição – Conceição Evaristo.

Lei dos Sexagenários de 1885, determinou que os escravos maiores de sessenta anos fossem imediatamente libertados. Uma lei que trouxe grande insatisfação aos abolicionistas, uma vez que devido as condições exageradas de trabalho, a condições de vida e alimentares insatisfatórias. A faixa etária de vida da população negra, era em torno dos 40 anos de idade. Essa lei não favorecia em nada aos negros, e sim aos fazendeiros. Uma vez que um indivíduo que trabalhou a sua vida inteira servindo a um fazendeiro, se ver livre aos 65 anos, com uma saúde geralmente debilitada, num país ainda escravista e racista. O “escravo liberto” encontrava bastante dificuldade de se inserir em um meio social. Já os fazendeiros, não precisariam ter responsabilidades com escravos velhos, que já apresentavam pouca produtividade e ainda economizavam moradia e alimentação com a “liberdade” do escravo idoso. Lei Áurea de 1888, assinada pela Princesa Isabel, esta lei aboliu definitivamente a escravidão no Brasil.

Porém, a liberdade não garantiu aos ex-escravos melhorias significativas em suas vidas. Como o governo não se preocupou em integrá-los à sociedade, muitos enfrentaram diversas dificuldades para conseguir emprego, moradia, educação e outras condições fundamentais de vida. Vale lembrar que muitos fazendeiros preferiram importar mão-de-obra europeia à contratar os ex-escravos como assalariados.

Por isso é importante revermos os mitos de liberdade do passado, para compreendermos, visualizarmos, lutarmos e vencermos os conflitos do presente. E hoje afirmamos que a “Lei Áurea” é uma referência, mas ainda vivemos o mito da abolição. O próprio governo, após a escravidão, não pensou em nenhum programa assistencial ou em alguma forma de incluir os escravos libertos para uma condição de vida básica. O que contribui para o aumento das condições de miserabilidade no país e hoje ainda existe uma ideologia da classe dominante, fazendo com que os efeitos do período de escravidão ainda se façam presentes.

Apesar dos avanços sociais, econômicos e políticos que alcançamos, ainda há muitos afro-descendentes sem acesso ao trabalho, à educação, à saúde, as condições dignas de vida.

O Acadêmicos da Abolição aponta o contexto histórico, reforçado ao pensamento da Conceição Evaristo, em relação ao racismo no Brasil, trazendo a escrevivência do racismo estrutural.

Os ossos de nossos antepassados
colhem as nossas perenes lágrimas
pelos mortos de hoje.
Os olhos de nossos antepassados,
negras estrelas tingidas de sangue,
elevam-se das profundezas do tempo
cuidando de nossa dolorida memória.
A terra está coberta de valas
e a qualquer descuido da vida
a morte é certa.
A bala não erra o alvo, no escuro
um corpo negro bambeia e dança.
A certidão de óbito, os antigo sabem,
veio lavrada desde os negreiros.
Certidão de óbito – Conceição Evaristo.

“Conceição Evaristo tem afirmado que qualquer pessoa seja branca ou negra para afirmar que existe democracia racial no Brasil, tem que ser muito inocente ou sínica e considera que a sociedade brasileira tem tido mais coragem de colocar o dedo na ferida”. Conceição Evaristo.

Apesar do processo abolicionista não ter se concretizado até os dias de hoje, não podemos perder as esperanças de alcançarmos a cidadania plena. Conceição Evaristo através do seu poema “Todas as manhãs” perpetua em sua escrevivência o ato de colocar o dedo na ferida, apontando poeticamente a crueldade dos modos de como se dão as relações entre os diversos povos que formam a nação brasileira mais anunciando o sentimento de esperança nas novas gerações.

Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.
Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.
Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós.
Todas as manhãs – Conceição Evaristo.

Setor 3 – A escrevivência no Samba. O abolicionismo cantado, tão belo como os versos, poemas e contos de Conceição Evaristo.

Em nosso terceiro setor a nossa escola conduzirá nossa grande homenageada a história afrodescendente do carnaval no RJ.

Nossa agremiação exaltará a figura emblemática de Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata para a maioria. A casa na Rua Visconde de Itaúna 117, era considerada a da Pequena África (lugar ponto de encontro de baianos negros e ex-escravos radicados, aonde se reuniam músicos amadores e compositores em anonimato).

O Samba no Rio de Janeiro nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do século XX era marcado pela presença das chamadas “tias” baianas sendo consideradas guardiãs da cultura popular que elas mesmas transportaram de Salvador para o Rio de Janeiro. Eram festeiras eméritas, mestras na arte do samba, versadoras, improvisadoras, cantadeiras, passistas e cozinheiras absolutas mantendo por dias os fogões acesos e os quitutes quentinhos para os que vinham “brincar o samba” em seus casarões.

No Rio de Janeiro, Tia Ciata, reinava soberana em seu casarão na Praça Onze. Era uma grande cozinheira e mãe de santo iniciada no candomblé em Salvador por Bangboshê Obitikô e era filha de Oxum.

Muitos historiadores afirmam que provavelmente em sua casa, foi composto o primeiro samba gravado em disco. “Pelo Telefone – uma composição de Donga e Mauro de Almeida”.

O Acadêmicos da Abolição relembra esse processo de manifestação afro descente e a luta dessa população negra. Já que início do século XIX, as manifestações, rituais e costumes africanos eram proibidos, pois não faziam parte do universo cultural europeu. O Samba assim como nossa Conceição Evaristo, são “feitos” que contrariam um padrão de uma sociedade, muitas vezes racistas que demoram a aceitar e celebrar as manifestações e pessoas negras valorizando-as como grandes expressões artísticas genuinamente nacionais.

Nosso pavilhão que abraçou Conceição Evaristo, irá homenagear alguns dos pavilhões mais tradicionais do carnaval carioca. Exaltando alguns enredos abolicionistas, que renderam as grandes Escolas de Samba do RJ, lindos Sambas de Enredos com mensagens fortes e inesquecíveis; assim como os versos, poemas e contos de Conceição Evaristo.

Misturar a escrevivência de Conceição Evaristo com essas grandes obras de grandes escolas de samba é prova que o carnaval é um grande berço da cultura afrodescendente.

A Portela com sua águia altaneira de Madureira já fez algumas belas exaltações negras em seus carnavais. Um dos sambas mais fortes, nessa mensagem abolicionista, foi cantando no ano de 1972 com o enredo: “Ilu Ayê, a terra da vida”.

Ilu Ayê, Ilu Ayê Odara
Negro cantava na Nação Nagô
Depois chorou lamento de senzala
Tão longe estava de sua Ilu Ayê
Tempo passou ôô
E no terreirão da Casa Grande
Negro diz tudo que pode dizer
É samba, é batuque, é reza
É dança, é ladainha
Negro joga capoeira
E faz louvação à rainha
Hoje
Negro é terra, negro é vida
Na mutação do tempo
Desfilando na avenida
Negro é sensacional
É toda a festa de um povo
E dono do carnaval

A Beija-Flor de Nilópolis no carnaval de 1978 inovou com o enredo: “A criação do mundo na tradição nagô”. Não abordou o sofrimento negro e sim trouxe o sincretismo negro religioso na criação do mundo.

Bailou no ar
O ecoar de um canto de alegria!
Três princesas africanas
Na sagrada Bahia
Iá Kalá, Iá Detá, Iá Nassô
Cantaram assim a tradição Nagô
Olorum! Senhor do infinito!
Ordena que Obatalá
Faça a criação do mundo
Ele partiu desprezando bará
E no caminho adormecendo se perdeu
Odudua
A divina senhora chegou
E ornada de grande oferenda
Ela transfigurou
Cinco galinhas d’angola e fez a terra
Pombos brancos criou o ar
Um camaleão dourado transformou em fogo
E caracóis no mar
Ela desceu por cadeias de prata
Em viagem iluminada
Esperando Obatalá chegar
Ela é rainha
Ele é rei e vem lutar
Iê,rê,rê, iê, rê, ie,rê, ôôôô
Travam um duelo de amor
E surge a vida com seu esplendor
Iê,rê,rê, iê, rê, ie,rê, ôôôô
Travam um duelo de amor
E surge a vida com seu esplendo

A Estação Primeira de Mangueira no carnaval de 1988 com o enredo: Cem anos de liberdade, realidade ou ilusão. Trouxe um dos sambas mais críticos da história negra no carnaval.

Será que já raiou a liberdade
Ou se foi tudo ilusão
Será, que a lei Áurea tão sonhada
Há tanto tempo assinada
Não foi o fim da escravidão
Hoje dentro da realidade, onde está a
liberdade
Onde está que ninguém viu
Moço não se esqueça que o negro
Também construiu, as riquezas do nosso
Brasil
Pergunte ao Criador,pergunte ao criador
quem pintou
esta aquarela
Livre do açoite da senzala
Preso na miséria da favela,
Sonhei….que Zumbi dos Palmares voltou
A tristeza do negro acabou
Foi uma nova redenção
SENHOR…(ah senhor!)
Veja a luta do bem contra o Mal
que tanto sangue derramou
contra o preconceito racial
O Negro samba
o negro joga capoeira
ele é o Rei da Verde e Rosa da Mangueira

Por meio desses sambas tão fortes, com mensagens abolicionistas e de sincretismo religioso afrodescendente. Nossa escola quer associar e mostrar que o batuque, que mais tarde originaria o samba era um acalanto para o corpo, a alma e o coração do negro. Assim como os versos, poemas e contos de Conceição Evaristo; que conseguem nos remeter ao passado, questionando o presente e nos preparando para um futuro. E que esse possa ser de união, igualdade, amor e amizade entre todas as raças e principalmente de respeito ao povo negro e todas as experiências trazidas pelos afrodescendentes, como trazida em partes nesse poema de Conceição Evaristo:

“….trago na palma das mãos, não somente a alma, mas um rubro calo, viva cicatriz, do árduo refazer de mim.

Trago na palma das mãos a pedra retirada do meio do caminho.

E quando o meu pulso dobra sob o peso da rocha e os meus dedos murcham feito a flor macerada pelos distraídos pés dos caminhantes, eu já não grito mais. Finjo a não dor…”

Amigas – Conceição Evaristo.

“Ser enredo de uma escola de samba é como voltar às minhas origens, voltar ao meu lugar. Poder difundir minha história em uma das maiores festas populares do mundo é lindo, gratificante. E poder falar de “escrevivência”, que é escrever sobre a vivência, me emociona.” – Conceição Evaristo

“… para mim essa é uma bela homenagem. Sentir o meu nome ser apresentado em uma das manifestações que marca a resistência e a presença negra na cena cultural brasileira. Cena essa, cujo dado cultural fundante, é o samba. Agradeço e me sinto compensada por carregar em minha escrita, em meus discursos um constante comprometimento com a realidade da comunidade afrobrasileira, notadamente das mulheres negras. Agrada-me profundamente a teia de relações de sentidos que pode ser explorada na figura de Tia Ciata e tantas outras, da África à Diáspora, e que inspiram a minha luta. Portanto, só tenho a agradecer ao GRES Acadêmicos da Abolição”. – Conceição Evaristo

Setor 4 – “Do Feto que em Mim Brota”.

Conceição Evaristo, uma mulher vitoriosa!

O Acadêmicos da Abolição encerrará o desfile contemplando toda a escrevivência e o “olhar” abolicionista de Conceição Evaristo. E ao dom dado por Deus e por Nossa Senhora das Luminescências que:

“…carrega, nos modos de ser, uma esperança para o desamparo de todos. O jeito dela é de tal brandura e fortaleza, que qualquer um vivendo o doloroso sentimento de abandono, ao encontrar a Senhora das Luminescências, conforto experimenta e se sente acolhido no coração mundo…” – Nossa Senhora das Luminescências – Conceição Evaristo.

Apesar de todas as dificuldades que nossa homenageada passou, a mesma nunca foi triste, por ter uma família, que mesmo sem grandes instruções lhe ofertaram o lado lúdico da literatura.

Conceição Evaristo tem conseguido um lugar de destaque na Literatura brasileira, por meio do seu dom da escrita. Em meio, a sua luta para sobrevivência, tem buscado afirmar a sua escrita como um exercício de direito das mulheres negras.

Segue trabalhando, mais embora já tenha tido várias conquistas não esquece a sua condição de mulher negra na sociedade brasileira, tendo experimentado o trabalho de doméstica, aprendido por varias mulheres de sua família, ela aprendeu a faxinar as mazelas da vida.

Conceição Evaristo estudou, se formou, exerceu o magistério em escolas públicas do Rio de janeiro, tornou-se mestra e doutora em estudo da literatura.

Suas conquistas não deixaram que sua origem caíssem no esquecimento, pelo contrario, sua escrevivência reelabora suas experiencias de vida servindo de inspiração para outras pessoas “tomarem a vida com as próprias mãos”.

A escrevivência de Conceição Evaristo propõe uma continua luta abolicionista, nos fazendo refletir que abolição total se dará nas conquistas efetivas de direito a vida.

Essa é a crença da nossa escola, mesmo com condições melhoradas, não podemos “vendar os nossos olhos” e esconder a realidade. A luta abolicionista, tem que ser um ideal praticado em nosso presente, pois só assim teremos um futuro de real igualdade e sem preconceitos raciais, sociais, transformando a realidade de uma grande parcela da população negra, que ainda vivem em condições de miséria, sentido fome e abaixo da linha de pobreza na sociedade.

E é de corpo, alma e coração que o pavilhão do Acadêmicos da Abolição incorpora o discurso transparente, realista, pensativo, questionativo da Conceição Evaristo. Discurso que pode nos trazer um otimismo encorajador capaz de contaminar a vida de cada um de nós.

Nossa escola, assim como a Conceição, acredita no poder de transformação das palavras. Ouvir a realidade é criar a sensibilidade para pararmos de agredir indivíduos, nossos irmãos, não importando se de pele negra ou branca.

Debaixo da língua
a migalha de pão
brinca à fome.
Pão – Conceição Evaristo.

Barracos
montam sentinela
na noite.
Balas de sangue
derretem corpos
no ar.
Becos bêbados
sinuosos labirínticos
velam o tempo escasso de viver.
Favela – Conceição Evaristo.

“Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia…”
Da calma e do silêncio
Conceição Evaristo.

Ser Abolição é ser abolicionista é ter o coração verde de esperança, cantar a realidade, lutar em sociedade, promover a união e retirar a retórica dos sentimentos escravistas do coração!

Creio que se o ato de ler oferece a apreensão do mundo, o de escrever ultrapassa os limites de uma percepção da vida. Escrever pressupõe um dinamismo próprio do sujeito da escrita, proporcionando-lhe a sua auto-inscrição no interior do mundo. Na maioria das vezes escrever dói, mas depois do texto escrito é possível apaziguar um pouco a dor, um pouco… Escrever pode ser uma espécie de vingança, um desafio, um modo de ferir o silêncio imposto, ou ainda, um gesto de teimosa esperança. E afirmo sempre que a nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para “ninar os da casa grande” e sim para incomodá-los em seus sonos injustos. – Conceição Evaristo

Agradecemos a Maria da Conceição Evaristo de Brito! Por fazer nossa agremiação ver, sentir e alertar que:

“.. há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra”.

Da calma e do silêncio – Conceição Evaristo.