Há 50 anos na Praça Onze…

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Fevereiro de 1969. Em plena ditadura militar, apenas alguns meses após o decreto do Ato Institucional 5 (AI-5) que deu início ao período mais turbulento da história recente do Brasil, chegava mais um carnaval.

O Grupo III das escolas de samba, filiadas à AESEG e à CBES, desfilou na Praça XI.

Previsto para as 19 h, o desfile das escolas de samba do Grupo III, somente foi iniciado por volta das 23 h, culpa atribuída à Secretaria de Turismo, pois esta havia prometido enviar ônibus para transportar os integrantes da Caprichosos de Pilares, primeira agremiação a desfilar, o que não aconteceu. Os componentes da azul e branco suburbana tiveram que dar o seu jeito para chegar à Avenida. Com o tempo passando, a Coordenação de Desfiles ordenou que as escolas entrariam na pista, não mais pela ordem do desfile prevista, mas sim à medida que cada uma se considerasse pronta para iniciar sua apresentação. A demora foi tamanha que deu tempo para os integrantes da Caprichosos chegassem e fossem os primeiros a entrar na Avenida. A bagunça era tanta que a Comissão Julgadora foi formada às pressas, presidida pela pintora Carla Maroni, que julgou evolução e conjunto. Os julgadores reclamaram da péssima iluminação da Avenida e também do palanque a eles destinados pela Secretaria de Turismo. A Coordenação de Desfiles, para amenizar um pouco a falta de luz, mandou colocar, às pressas, uma lâmpada de 100 w no palanque, para “ajudar” os julgadores a observar melhor as escolas quando passassem à sua frente. Por conta do atraso, muitas das pessoas que ocupavam as arquibancadas decidiram partir para o lado oposto da Presidente Vargas, onde aconteciam os desfiles do Grupo I. Só ficou mesmo quem era aficionado pelas agremiações do Acesso. Enfim, precisamente, às 23h 05 min, a Caprichosos de Pilares entrou na Avenida, com o enredo “A revolução dos alfaiates”. Com 600 componentes, divididos em 12 alas, a azul e branco arrancou aplausos do público presente. Seu samba-enredo, composto por Cid, Lula e Tarzan, foi considerado um dos melhores da noite.

A próxima escola a entrar na Avenida foi a União de Vaz Lobo, uma das mais fortes candidatas ao acesso ao Grupo II. Com o enredo “Amor em sinfonia”, baseado em “O Guarani”, de Carlos Gomes, veio impecavelmente vestida. Nas alegorias foram lembradas as óperas “Tosca”, de Giacomo Puccini, e “Joana de Flandres”, “Lo Schiavo” e “Maria Tudor”, de Carlos Gomes.

“Três dias de festa no Tijuco” foi o enredo da Independentes do Zumbi, agremiação já extinta, do carnavalesco Quintino Rufino. Além de ser o autor do enredo, Quintino foi o intérprete da escola na Avenida. Com cenografia de Ubiratan, a azul e branco desfilou com 350 componentes, sendo que, 24 deles, na bateria. Não apresentou alegoria. O diretor-geral da escola fez questão de esclarecer, para a comissão julgadora, que seu enredo falava sobre a integração das três raças, branca, negra e índia. A figura central do desfile era o Rei Xangô. Se não fez uma apresentação que a credenciasse para o título, ao menos ninguém dizia que ocuparia os últimos lugares.

A Unidos de Manguinhos, quarta escola a entrar na Avenida, veio com o enredo “Caçador de esmeraldas”, que contava fatos históricos ocorridos na época das entradas e bandeiras. Com cerca de 800 componentes, sendo que 120 deles na bateria, foi uma das agremiações com o maior contingente. Um destaque, vestido ricamente, representou Fernão Dias Paes Leme, bandeirante que ficou conhecido  por “Caçador de esmeraldas”, que dá nome ao enredo. Os maiores destaques do desfile da, na época,  verde e branca, foram uma ala de baianas estilizadas e um pequeno passista. Enredo pouco explorado na Avenida.

A Império do Marangá, simpática agremiação, hoje extinta, a primeira a pisar a pista do Sambódromo, em 1984, desfilou com o enredo “Glória de três raças”, de Jaci Gonçalves as Neves. A escola da Praça Seca, em Jacarepaguá,  contou com o luxuoso auxílio de Clóvis Bornay, que revisou toda parte cenográfica e desfilou com cerca de 400 componentes, divididos em 12 alas. A bateria contou com 62 ritmistas. Alguns dos grandes destaques da escola foram Marilene, passista, e a ala dos Capoeiras. Suas duas alegorias se chamavam: “Três raças, um só coração” e “Brasil, o coração”. Silvano Hollanda e Sônia Peixoto do Vale foram os autores do samba-enredo que embalou a Avenida e credenciou a azul e branco como uma das candidatas ao título.

Com 400 componentes, 40 na bateria, o Império de Campo Grande, agremiação da Zona Oeste, hoje extinta, desfilou com o enredo “Lendas e riquezas da Amazônia”. Seu enredo, rico, foi mal desenvolvido. O samba, de Severino e Nelson, considerado muito extenso, não ajudou a escola. Os componentes não conseguiram “assimilar” a letra, conforme noticiou o Jornal  dos Sports, de 21/02/1969.

A Unidos de Bangu, com seu desfile, foi considerada uma das mais fortes concorrentes da noite e veio com o enredo “Maria Quitéria, heroína da Independência”, do carnavalesco Dário Silva. Samba-enredo composto por Cidelino Tibúrcio e Floriano Matos. Suas alegorias representaram a Câmara onde Maria Quitéria foi condecorada por D. Pedro I e a igreja onde foi batizada. Desfilou com 300 componentes, 50 deles na bateria.

A Unidos do Uraiti, agremiação extinta, da Estrada do Barro Vermelho, entre Colégio e Rocha Miranda, desfilou com o enredo “Os invasores”, baseado no livro “Daniela e os invasores”, da imortal da Academia Brasileira de Letras, Dinah Silveira de Queiroz. Altair Gomes de Matos e Arlindo Fernandes foram os carnavalescos. Destaque para as duas porta-bandeiras. Desfile considerado fraco.

A Unidos do Cabuçu, escola que, já, em 1969, era considerada uma das forças do Grupo de Acesso. Desfilou com o enredo “Origem do samba”, de Iba Nunes e Jorival de Moraes, levando para a Avenida cerca de 800 componentes, 85 na bateria. Abriu o desfile com uma aplaudidíssima ala de passistas. Apresentou duas belas alegorias. A primeira dela representava um escravo, vigiado por um soldado, pedindo ajuda à Mãe d’Água para ser salvo da morte. Outra tratava da fundação da Deixa Falar, a primeira escola de samba. A principal destaque, a primeira dama da azul e branco, Ariete Motta, dava vida a Carlota Joaquina, Rainha Consorte de Portugal, Brasil e Algarves, com uma fantasia riquíssima. A Cabuçu terminou seu desfile por volta das 9 h 45 min, já com o sol queimando o asfalto da Presidente Vargas.

A Capricho do Centenário, uma das quatro agremiações que se uniram para fundar, em 1971, o GRES Grande Rio (que, em 1988, se fundiu com a Acadêmicos de Caxias para formar a Acadêmicos do Grande Rio), trouxe, como enredo “O Guarani”, clássico de José de Alencar. Com 350 componente, 45 deles na bateria. A verde e branco, do bairro do Centenário, em Caxias, apresentou alegorias falando do amor entre Peri e Ceci. Numa delas, mostrava um quadro, retratando a luta de Peri para oferecer a Ceci uma onça viva. O maior destaque do desfile foi o belíssimo samba-enredo, considerado um dos melhores da noite, de autoria de Carlos Oliveira Santos, o “Mexicano”.

A União da Ilha do Governador que ganhava destaque na mídia por conta da presença, em seus desfiles, do tricampeão do mundo, o insulano Hércules Brito Ruas, zagueiro da seleção brasileira na Copa de 1970. Brito e Alcir (Portela), companheiro de Vasco da Gama, desfilariam na bateria, tocando tamborins. O enredo da tricolor insulana era “Cenários de nossa terra”, desenvolvido pelo carnavalesco João Moleque, ex-Aprendizes de Lucas. O samba-enredo, de autoria de Didi e Aurinho da Ilha. Outro destaque da agremiação em 1969 era o mestre-sala Periquito, o famoso “Pardal dourado”. Em sua apresentação na Praça XI, a União da Ilha se credenciou como uma das favoritas, com um desfile considerado “muito forte”.

A Unidos da Ponte veio com o enredo “Grandes trechos nacionais”. Desfilou com cerca de 200 componentes, 25 deles, ritmistas. As alegorias representavam personagens históricos, como D. Pedro I, Tiradentes, Marechal Deodoro da Fonseca e as batalhas do Riachuelo e Tuiuti. Coube às baianas abrir e encerrar o desfile. As fantasias, em boa parte, caracterizavam cavalheiros e damas da corte imperial.

A Unidos de Vila Santa Tereza, escola de Coelho Neto, desfilou com um enredo homenageando os heróis da Guerra de Guararapes. Apresentou 400 componentes, em azul e branco. Sua bateria contou com 30 ritmistas. O destaque do desfile foi uma ala de dançarinos de gafieira.

A Unidos da Vila São Luís, de Duque de Caxias (uma das quatro agremiações que se uniram para fundar o GRES Grande Rio), veio com o enredo “Casemiro de Abreu, poeta do amor e da saudade”, desfilou com 280 componentes, 45 deles na bateria. Seus ritmistas vieram fantasiados com calças brancas, enfeitadas com flores vermelhas. A ala das crianças abriu o desfile, lembrando a infância do poeta. Alas coreografadas representaram poemas de Casemiro, como “Pepita” e “Moreninha”. Samba-enredo composto por Quincas e Valtinho.

Ainda Unidos de Nilópolis, Acadêmicos do Engenho da Rainha, Inferno Verde, Cartolinhas de Caxias e Unidos de Cosmos completaram o desfile

Fonte: Livro Apoteótico: os maiores carnavais de todos os tempos 1969 de Jorge Renato Ramos. Capítulos XXX – Preparativos União da Ilha, fls. 213 a 216, e XXXI – Desfiles Acesso, fls. 217 a 224.

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