Grêmio Recreativo Escola de Samba Difícil é o Nome
Carnaval 2026
SINOPSE
LENDÁRIA CRIAÇÃO KARAJÁS
Kananciué (Toada)
Wandiê ê ê á á (3x)
Wandiê ê ê carajá!!
Ciê…
Kã-werá!
Kananciuê (kananciuê)
Tatauapã (tatauapã)
Numiá (numiá)
Arapiá (arapiá)
Numiá…
Sob a luz do luar
Ê ê ê ê ê ê ê ê
Nas terras de berocã
Canaã, canaã
Às margens do rio Araguaia
Aruanã… (3x)
Inansô-werá
Ê ê ê ê ê ê ê ê
E se fez a luz
No sopro da vida á
Ciê (5x)
Ciá Carajá!
No início dos tempos, quando foram criados pelo Ser Supremo – KANANCIUÉ, os Karajás eram imortais. Viviam felizes como peixes – Os Aruanãs. Não conheciam nada que não fosse dos rios e das águas. Não conheciam o sol, nem a lua, nem as plantas. Nem animal algum que não fosse dos rios.
Nesse rio onde viviam havia um buraco pelo qual vinha uma luz que os fascinava. Essa luz ressaltava as cores das escamas e de tudo que existia por perto. Quando se aproximavam daquele buraco, ficavam curiosos. Tentavam ver com ansiedade o que era aquilo. Por causa da luminosidade, não conseguiam divisar o que existia além. Como seria do outro lado? Perguntavam-se. Mas o Ser Supremo havia proibido que entrassem ali. Senão, perderiam a imortalidade. E apesar da tentação, eles obedeciam fielmente.
“… Certo dia, um jovem Karajá, um aruanã mais audacioso, ousou e foi ver o que existia do outro lado daquele buraco luminoso. Ficou surpreso quando chegou às areias brancas do rio Araguaia e descobriu encantado um mundo maravilhoso, totalmente diferente do seu. Uma paisagem deslumbrante. Viu o céu de um azul profundo com um Sol radiante iluminando e aquecendo a natureza. Pássaros multicoloridos se misturavam no ar com muitos matizes. Escutou a música do canto das araras, periquitos e sabiás. Muitos animais estavam em paz, um do lado do outro: tamanduás, onças, cutias. Nas campinas, flores perfumadas. Nas florestas, árvores carregadas de frutos. O jovem Karajá andou por essas maravilhas até o anoitecer, quando, então, descobriu outro cenário ainda mais bonito: a Lua despontava prateada iluminando as montanhas ao longe. Constelações de estrelas iluminavam o céu. Ele passou a noite deslumbrado até ver renascer o Sol no horizonte. Resolveu voltar ao buraco luminoso, descrever para os seus irmãos e irmãs peixes tudo que tinha visto. Com os olhos cheios de beleza, contou o que tinha acontecido e o que tinha observado:
“__ Passei pelo buraco luminoso, descobri um mundo que nunca havia imaginado e que vocês também não podem imaginar. Com alegria no coração, contemplei o Sol e os animais. Os campos e as florestas. Sob a luz da Lua, vi as montanhas e muitas estrelas. Escutei música vinda dos pássaros e dos riachos. Vamos todos até lá? Todos os seus irmãos Karajá, mesmo sem entender tudo que ouviram, quiseram logo acompanhar o jovem afoito.”
Mas os mais experientes, os anciãos, disseram com grande sabedoria: – Irmãos e irmãs, temos que respeitar nosso Criador, que nos quer bem e nos fez imortais assim como ele. Vamos falar com ele e pedir-lhe a permissão. Todos os aruanãs concordaram e assim fizeram. Depois de ouvi-los, o Criador – Kananciué – respondeu, com um pouco de tristeza por causa da desobediência do jovem: – Entendo que queiram transpor o buraco luminoso, que os levará deste mundo a outro de cores e beleza. Lá, poderão contemplar a majestade do Sol, o esplendor das estrelas, a suavidade da Lua. Descobrirão flores, frutos e animais. Poderão se divertir e deliciarem-se com as águas claras do rio Araguaia e suas areias brancas. Dançar ao som do canto dos pássaros. Mas revelo a vocês o que não sabem, nem veem. Toda a beleza naquele mundo é efêmera como a borboleta das águas que conhecem, que nasce hoje e desaparece amanhã.
Os seres de lá não são como vocês: nascem, crescem, envelhecem e caminham para a morte. São mortais. Vocês ganharão a liberdade, mas perderão a imortalidade. A decisão é de vocês. O que decidem? O que escolhem?
Houve um grande silêncio. Todos olharam para o jovem que descobrira o mundo da liberdade. Todos estavam fascinados com a possibilidade de viver a beleza, confirmada pelo Ser Supremo – Kananciué Então, responderam:
– Sim, pai, queremos ir viver no paraíso encantado dos mortais.
O Ser Supremo falou com eles pela última vez:
– Aceito a decisão de vocês porque acima de tudo prezo a liberdade. Vocês trocarão a imortalidade pelo dom precioso da liberdade. Saibam que quando passarem por aquele buraco, vocês serão mortais, mas totalmente livres.
E todos aqueles aruanãs passaram entusiasmados pelo buraco luminoso para chegar ao mundo da beleza efêmera e alegrias finitas. Até hoje os Karajá vivem naquele paraíso, às margens do rio Araguaia. Tendo a coragem de Renascer como seres de liberdade, o que continuam sendo até hoje.”
Os Karajás habitantes seculares das margens do rio Araguaia nos estados de Goiás, Tocantins e Mato Grosso, os Karajá têm uma longa convivência com a Sociedade Nacional, o que, no entanto, não os impediu de manter costumes tradicionais do grupo como: a língua nativa, as bonecas de cerâmica, as pescarias familiares, os rituais como a Festa de Aruanã e da Casa Grande (Hetohoky), os enfeites plumários, a cestaria e artesanato em madeira e as pinturas corporais, como os característicos dois círculos na face. Tal nome é a denominação Tupi para um grupo linguístico que se autodenomina Iny (nós mesmos).
Se destacam pela sua arte cerâmica, em especial pelo modo de fazer as bonecas (ritxòò/ ritxkòkò), atributo exclusivamente das mulheres. Esse saber tradicional está sendo objeto de um processo com vistas ao seu registro como patrimônio imaterial brasileiro, tal como a arte plumária é outro aspecto marcante deste povo.
Destaca-se o “raheto”, grande cocar feito de penas de urubu, coelheiro branco e rosa e de periquitos, usado pelos homens solteiros na ocasião das festas de iniciação dos meninos, conhecida como Casa Grande ou Hetohoky. Diz a lenda que o Sol era o raheto do urubu-rei que o herói mitológico (Kynyxiwe) feriu com uma flecha. Por isso, o sol anda devagar atravessando o céu durante o dia.
Os Karajás têm o rio Araguaia como um eixo de referência mitológica e social. Isto mostra uma grande mobilidade dos Karajás, que apresentam como uma de suas feições culturais a exploração dos recursos alimentares do rio Araguaia. Eles têm, ainda hoje, o costume de acampar com suas famílias em busca de melhores pontos de pesca de peixes e de tartarugas, nos lagos, nas praias e nos tributários do rio, onde, no passado, faziam aldeias temporárias, inclusive com a realização de festas, na época da estiagem do Araguaia. Com a chegada das chuvas, mudavam-se para as aldeias construídas nos grandes barrancos, a salvo das subidas das águas, onde, em alguns lugares, ainda hoje fazem suas roças familiares e coletivas, locais de moradia e cemitérios.
Em sua Cosmologia concebem o universo como formado por três camadas:
Um mundo subaquático de onde surgiu a humanidade e onde habitam os Idijaçós entidades protetoras e antepassados míticos;
O mundo terrestre, visível a qualquer um e morada dos atuais karajás;
O mundo das chuvas, onde moram entidades poderosas e destino das almas dos xamãs.
A comunicação com esse mundo cósmico é assegurada pela existência do xamã, cuja atuação é reconhecida sempre como ambígua: traz as curas e as entidades, mas pode trazer a doença e a morte.
Existe uma correspondência simbólica entre a distribuição vertical dos referidos povos míticos e as atuais aldeias Karajá ao longo do vale do rio Araguaia. Os Xambioá são os Iraru Mahadu, o Povo de Baixo, ao norte do Araguaia. Os Karajá da ponta sul da ilha e os de Aruanã são alguns dos representantes do Povo de Cima, ou Ibóó Mahadu.
Flavio Lins
Carnavalesco

