G. R. E. S. ACADÊMICOS DE REALENGO
CARNAVAL 2024
Enredo: “VEM COM A REALENGO NESTA FOLIA!”
Defesa – Justificativa
O Enredo “Vem Com A Realengo Nesta Folia!” tem como base o carnaval como manifestação popular, cultural e folclórica após sua chegada em terras cariocas a partir da primeira metade do século XIX. Estas primeiras manifestações foram retratadas pelo pintor francês Jean Baptiste Debret durante os quinze anos de permanência no Brasil (1816 a 1831).
Debret durante este período enviava cartas a Paris relatando a experiência em terras brasileiras e depois escreveu o livro “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil” ilustrado com 220 gravuras descrevendo os acontecimentos que havia presenciado.
Em uma viagem carnavalizada, o enredo contará através das personagens da Commedia Dell’Arte (Arlequim, Colombina e Pierrô) o início destas manifestações, suas transformações e influências até a atualidade, divido em três setores:
Primeiro Setor: O Início dos Cortejos Pelas Ruas – (Entrudo – As Grandes Sociedades Carnavalescas – Cordões e Blocos)
No primeiro setor as personagens da Commedia Dell’Arte dão início aos primeiros cortejos.
O Entrudo foi a primeira manifestação popular que fora introduzida no Brasil através dos portugueses, desde os tempos de D. João VI. Consistia em brincadeiras que aconteciam nas ruas onde grupos jogavam nas pessoas bolas de cera cheias de água (limões de cheiro), ovos, farinhas e pós de diversas substâncias.
Mas não se restringia somente as ruas, em 1822, ano da independência do Brasil, Augustus Earle ilustrou uma imagem da brincadeira no interior de uma residência com moradores e convidados jogando limões de cheiro nas janelas vizinhas. Em 1880, o artista e caricaturista Angelo Agostini retratou a brincadeira quando esta era feita com água lançada em bisnagas e também farinha de trigo.
Ao retornar à França, o pintor Jean Baptiste Debret descreveu como eram as manifestações carnavalescas no Brasil, e o Entrudo fora descrito pelo pintor, tanto através de um livro, como também através de ilustrações.
As Grandes Sociedades Carnavalescas surgiram na segunda metade do século XIX, onde um grupo de pessoas da alta sociedade brasileira fundou um clube de entretenimento e saíam em cortejo pelas ruas com fantasias luxuosas. Mas precisamente em 1855, um clube chamado Congresso das Sumidades Carnavalescas fez seu primeiro desfile pelas ruas do Rio de Janeiro, tomando o lugar do Entrudo nas ruas.
Esse clube tinha como um de seus fundadores o autor José de Alencar. As duas primeiras grandes sociedades foram o “Congresso das Sumidades Carnavalescas” e a “Sociedade Veneziana”, que tentavam reproduzir algo inspirado no Carnaval de Veneza. Outros clubes foram surgindo, organizando bailes e desfiles suntuosos pelas ruas, dando novos aspectos ao Carnaval Carioca.
Um dos clubes remanescentes das grandes sociedades carnavalescas é o Club Democráticos, que hoje funciona como local tradicional e popular de dança de salão e por promover bailes populares.
Ainda na segunda metade do século XIX surgiram os Cordões Carnavalescos, que tinha como característica principal foliões mascarados com os mais diversos temas tipos de temas, como palhaços, velhos, índios, reis e rainhas, diabos, baianas e vários outros tipos de personagens.
Os Cordões tinham este nome porque os participantes caminhavam e dançavam em filas um atrás do outro, escolhiam um tema para as fantasias dos foliões, e os mesmos obedeciam ao comando do apito de um Mestre. O ritmo e som da brincadeira eram feitos somente por instrumentos de percussão.
Em 1886 foi fundado o Cordão Estrela da Aurora, apesar da existência de outros cordões anterior ao registro histórico. A partir de 1902 os cordões se proliferaram no Rio de Janeiro, mais de duzentos foram licenciados pela polícia da então Capital Federal.
Existiam Cordões de vários bairros e em 1906 o Jornal Gazeta de Notícias organizou o primeiro Concurso de Cordões da cidade.
Quando os grupos eram mais desorganizados ou descontrolados chamavam-se “Blocos ou Cordões”.
Em tempos passados, os “Blocos” seriam um meio termo entre os “Ranchos” e os “Cordões”, que não eram muito bem vistos. Os Blocos foram a inspiração para “grupos de samba” que procuravam aceitação social e que posteriormente viriam ser as escolas de samba a partir da década de 1930. Os Cordões se extinguiram em sua forma original e passaram a se chamar blocos.
Os primeiros blocos a serem licenciados pela polícia do Rio de Janeiro em 1889 foram: Zé Pereira, Bumba Meu Boi, Estrela da Mocidade, Grupo Carnavalesco São Cristóvão, Corações de Ouro, Recreio dos Inocentes, Grupo de Máscaras, Novo Clube Terpsícoro, Guarani, Piratas do Amor, Bondengó, Lanceiros, Teimosos do Catete, Guaranis da Cidade Nova, Prazer da Providência, Prazer do Livramento.
Em 1918 surge o Cordão da Bola Preta, que apesar de ter em seu nome a palavra “Cordão”, nunca foi um cordão e sim um bloco cuja finalidade era revigorar e reviver as tradições dos antigos cordões que havia desaparecidos.
Fundado por Álvaro Gomes de Oliveira (Kaveirinha), Francisco Brício Filho (Chico Brício), Eugênio Ferreira, João Torres e os três irmãos Oliveira Roxo, Jair, Joel e Arquimedes Guimarães.
Kaveirinha deu o nome ao bloco inspirado em uma linda mulher passando com um vestido branco de bolas pretas, desfilou pela primeira vez em treze de dezembro de 1918.
Em 12 de dezembro de 1956, em uma mesa de um botequim no bairro do Catumbi no centro do Rio de Janeiro, foi fundado o bloco “Bafo da Onça”, que tem dentre seus fundadores Seu Tião Carpinteiro (Sebastião Maria), ex-policial e ex-carpinteiro que desfilava fantasiado de onça pintada durante o Carnaval.
O Bafo da Onça é um bloco de empolgação, estruturado seguindo o modelo de bloco simples, sem variações de fantasias, alegorias e enredos, desfilando no centro do Rio de Janeiro e bairros do subúrbio.
O bloco teve a participação de grandes nomes do samba, como a cantora Beth Carvalho, que no início da década de 1970, lançou um compacto com um dos sambas de maior sucesso do bloco.
Bastante badalado o Bafo da Onça contava com as participações de Sargentelli e suas mulatas, João Roberto Kelly, Dominguinhos do Estácio, além da cantora e compositora Marly (Marly a Onça que Canta) e o compositor Oswaldo Nunes que foram os dois mais importantes intérpretes do bloco.
Da união de grupos carnavalescos de jovens do bairro de Ramos, zona norte carioca, surge o Bloco Cacique de Ramos em 20 de janeiro de 1961. Desfilou por dois anos em seu bairro de origem e a partir de 1963 passou a figurar no Centro do Rio de Janeiro, se firmando como bloco de embalo.
Nos anos 60 e 70, o bloco se torna um fenômeno atraindo foliões de várias regiões do Rio, tornando-se referência no carnaval de rua com fantasia de indígena estilizado e desfiles vibrantes.
Dentre seus componentes ilustres estão o presidente Bira um dos fundadores bloco e integrante do Grupo Fundo de Quintal, a cantora e sambista Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Jorge Aragão, Marquinhos Satã, Arlindo Cruz, Sombrinha, Jovelina Pérola Negra e Luiz Carlos da Vila.
Segundo Setor: E Vem O Povo Dos Ranchos, Das Batalhas e Dos Subúrbios
No segundo setor será abrangido o surgimento dos Corsos e Batalhas de Confetes, dos Ranchos Carnavalescos e os Carnavais dos Subúrbios.
No final do século XIX surgiram os Ranchos Carnavalescos, os ranchos eram associações que desfilavam com alegorias semelhantes a um cortejo, com reis e rainhas ao som de uma marcha-rancho tocada por instrumentos de cordas e sopro. Tinham em suas fileiras mestres de harmonia, mestres de canto e mestre de sala responsável pelas coreografias.
Cada rancho tinha sua bandeira em formato de estandarte, um casal de Porta-Estandarte e Mestre-Sala responsável pela guarda do estandarte.
O primeiro rancho carnavalesco foi o “Reis de Ouro”, criado em 1893 pelo pernambucano Hilário Jovino Ferreira, que introduziu novidades como o enredo, personagens como mestre-sala e porta-bandeira (porta-estandarte), além dos instrumentos de cordas e sopro.
No início do século XX, início da era dos automóveis, as ruas ganharam uma nova atração, um cortejo inicialmente em carruagens e depois em automóveis.
Os Corsos carnavalescos eram manifestações ligadas às elites cariocas e pessoas de classe média alta. Estas brincadeiras aconteciam com os veículos com suas capotas de lona abaixadas e quando estes se cruzavam pelas ruas, começavam as batalhas de confetes, lança-perfumes e serpentinas.
As Batalhas de Confetes a partir de 1906 eram organizadas pela Gazeta de Notícias na recém inaugurada Avenida Rio Branco. Importadas do carnaval francês e muitas vezes confundidas com os corsos, tanto essas batalhas quanto os corsos, ao final dos anos 30 migraram para os bailes populares dos subúrbios.
Os bairros dos subúrbios organizavam bailes populares e, semelhantes às comissões de cortejos do século XIX, faziam publicações em jornais de convites a grupos carnavalescos. A expansão da festa pelos bairros contribuiu para o diálogo entre os diversos grupos sociais evolvidos em sua execução, mantendo o espírito competitivo tanto das festas populares quanto daquelas promovidas pelas elites.
No final do século XIX, palanques e coretos foram providenciados pela prefeitura na praça central de Madureira, com isso, a população suburbana passa a divertir-se no próprio bairro causando certo esvaziamento no carnaval da Rua do Ouvidor. E pelos bairros do subúrbio carioca a festa foi expandindo, grupos carnavalescos se organizavam para ornamentar as ruas dos bairros e construir coretos artísticos, centralizando a festa em seu entorno.
Terceiro Setor: No Embalo do Novo Ritmo Surgi A Escola, E No Palco da Folia As Ruas da Cidade É De Momo!
Em 1928, um grupo de sambistas do bairro Estácio no Centro do Rio de Janeiro tiveram a ideia de criar um bloco de carnaval diferente, que dançasse e evoluísse ao som do novo ritmo, o Samba, surge então a “Deixa Falar”. Diferente dos ranchos carnavalescos que evoluíam ao som das marchas-rancho, que tinham um ritmo mais pausado e utilizavam instrumentos de sopro e metal.
Os fundadores da Deixa Falar foram Ismael Silva, Alcebíades Barcelos, Nilton Bastos, Edgar Marcelino dos Passos, Osvaldo Vasques e Sílvio Fernandes. Em janeiro de 1929, ela foi mencionada pela primeira vez nos jornais da época, seus membros tinham envolvimento com ranchos carnavalescos e levaram essa experiência para o desenvolvimento dessa escola de samba.
A fundação da Deixa Falar motivou a evolução de outros blocos de Carnaval a se tornarem escolas de samba, foi o caso do Conjunto Carnavalesco Osvaldo Cruz (futura Portela) e do Bloco Carnavalesco Estação Primeira (futura Mangueira), que em 1929 participaram de um concurso de samba entre elas. Os historiadores, no entanto, não consideram esse o início dos desfiles das escolas de samba.
Os desfiles das escolas de samba foram criados oficialmente, a partir do ano de 1932, e considera-se que o idealizador desse evento foi Saturnino Gonçalves, sambista e primeiro presidente da Mangueira. A ideia que estava em curso entre os sambistas acabou sendo implantada por Mário Filho, jornalista que era dono de um periódico jornal de esportes, o Mundo Esportivo.
Entretanto, as Escolas de Samba também sofreram influências ou incorporaram certos aspectos dos desfiles dos Ranchos e das Grandes Sociedades Carnavalescas.
A aparição das escolas de samba está ligada à própria história do carnaval carioca em si, bem como da criação do samba moderno, tendo como precursor o rancho carnavalesco “Reis de Ouro”, responsável por apresentar novidades como enredo e personagens como mestre-sala e porta-bandeira.
Em dias atuais o grande palco da folia continua sendo as “Ruas” sejam no centro da cidade, nos bairros ou subúrbios. Nelas os foliões se fantasiam para brincarem o carnaval tanto nos blocos de embalos como nos desfiles das escolas de samba, pois a passarela do samba é uma Rua.
Nos últimos anos o número de blocos que desfilam pelas ruas do Rio aumentou notavelmente, se tornando uma realidade inquestionável da importância do Carnaval como manifestação da Cultura Popular Brasileira. Além, é claro da afirmação de identidade e costumes do nosso povo.
O Carnaval é a manifestação de cultura popular mais inclusiva, pois permite a participação de todos, independente de classe econômico-social, crença, raça e outros; o Carnaval é para todos que queiram se divertir nos dias de folia, o Carnaval é do Povo.
Pesquisa e Texto: Adriano Soares
Apresentação
O Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Realengo em sua estreia no Carnaval 2024 pela Super Liga Carnavalesca do Brasil, se debruça na folia de Momo para contar a evolução do Carnaval, a partir de sua chegada ao Rio de Janeiro através do enredo “Vem Com A Realengo Nesta Folia!”
As manifestações carnavalescas a serem retratadas, datam desde a primeira metade do século XIX até os dias atuais. No enredo “Vem Com A Realengo Nesta Folia!”, estas manifestações são trazidas a cidade pelas personagens da Commedia Dell’Arte, num misto de delírio e lirismo, encanto e fantasia, alegria e deboche.
Os Enamorados (Arlequim, Colombina e Pierrô) ao chegarem à cidade, encantam os foliões e os levam numa viagem carnavalesca através do tempo a brincarem o Carnaval pelo Entrudo, pelas Grandes Sociedades Carnavalescas, pelos Cordões e Blocos, pelos Corsos e Batalhas de Confetes, pelos Ranchos Carnavalescos, pelas Escolas de Samba e pelos blocos dos dias atuais.
Para esta viagem o Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Realengo convida a todos, a colocarem suas fantasias, transbordar de alegria e cair na folia!
Adriano Soares
Sinopse
Eis que, em terras de Dom Sebastião, os Enamorados desembarcam e, pelas ruas em cortejo de folia vem colorindo e encantando a cidade.
A vendedora de “limões de cheiro” se encanta com os festejos carnavalescos e os segue, ora perfumando os lugares por onde passara, ora lançando um perfume não tão cheiroso, é a chegada do Carnaval de Momo dos tempos de Dom João.
E pelas ruas, inspirada nos mais diversos temas, envolta a luxúria e o requinte das fantasias do mais puro estilo europeu, a alta sociedade brasileira desfila alegria e contentamento, são as sociedades carnavalescas surgindo e seguindo o trio de Enamorados.
Oh Saudosa Rua! Verdadeira, única, palco onde palhaços, velhos, índios, diabos, baianas, reis e rainhas, todos mascarados, em fileiras dançando e cantando no “Estrela da Aurora” coloriam a cidade.
Por ela, foliões em carruagens e automóveis se enfeitavam e no cruzar dos caminhos: confetes, águas, serpentinas e lança-perfumes, começaram as batalhas!
O Cacique mandou avisar:
– O Cordão já está na rua! Só falta o Bafo chegar!
E dos Folguedos, Cucumbis e Congadas Hilário anuncia:
– O “Reis de Ouro” “Taí!” E vai desfilar suas histórias encantadas pelos Enamorados em personagens embalados no ritmo da folia.
E a folia de Momo seguia de vento em popa e com ela, surgia o novo ritmo que tomou conta das ruas pelo povo dos morros e das favelas. Era o samba contagiando a cidade. Ismael e amigos já diziam: deixa o povo sambar!
E o povo seguiu brincando, seguiu sambando, enchendo as ruas de alegria.
Malandros e Cabrochas em seu bailado, Pierrô, Colombina e Arlequim, os Enamorados, anunciam: estão liberadas as sátiras, o bom humor, o deboche sem perder a alegria.
Pelas ruas do meu Rio, os foliões estão em festa, pelos bares, pelos blocos, pelos ônibus, pelos trens; vestiram todos suas fantasias!
Vem como pode! Vem brincar o Carnaval, vem cair nesta folia!
O Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos de Realengo se inspira na folia de Momo para contar no Carnaval de 2024 o Enredo “Vem Com A Realengo Nesta Folia!”
Adriano Soares
Referências Bibliográficas
Livro “Rio de Ontem e de Hoje”, autor Nelson Costa – ano 1958
Livro “O Homem e A Guanabara”, autor Alberto Ribeiro Lamego (Lamego Filho) – ano 1964
Livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”, autor Jean Baptiste Debret – ano 1834
Livro “Memória do Carnaval”, autor Hiran Araújo – ano 1991
Livro “Inventando Carnavais. O surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões carnavalescas”, autor Felipe Ferreira – ano 2005
Livro “Itinerário de Pasárgada”, autor Manoel Bandeira – ano 1984
Livro “História do Carnaval Carioca”, autor Eneida de Moraes – ano 1987
Livro “A Cultura Das Ruas no Rio de Janeiro (1920-1930) Mediações, Linguagens e Espaços”, autor Mônica Pimenta Velloso – ano 2004

